Guerra dos Sexos

02 de Março de 2013 sergio geia Crônicas 796

De férias, fui bisbilhotar as novelas. “Lado a Lado” é boa, embora seja profundamente irritante aquele negócio de fazer a mocinha sofrer o tempo todo. Ainda mais em se tratando da Camila Pitanga. Quando tudo parece bem, lá vem mais uma paulada na pobre. Passa a novela inteira pelejando, aí no fim, geralmente nos últimos dois capítulos, ela se dá bem. Mas a que custo, não?

Agora, insuperável mesmo está “Guerra dos Sexos”. Você que é noveleiro de plantão deve saber que se trata de um remake. No passado, Paulo Autran e Fernanda Montenegro interpretaram os papéis de Charlô e Otávio. Agora, quem os representa, não com menos competência, é o impagável Tony Ramos e a extraordinária Irene Ravache.

A novela é muito divertida, e chama a atenção a leveza com que Charlô e Otávio levam a vida, uma leveza, digamos, quase infantil, tão rara de se ver nos dias de hoje.

A vida ultimamente anda séria demais. As pessoas estão muito chatas, carrancudas, pesadas. Qualquer problema, por menor que seja, é motivo para se arrancar os cabelos. É só trabalhar, trabalhar, trabalhar, ganhar dinheiro, ter vida social, consumir, consumir e consumir. Os sonhos da infância ficaram pelo caminho e a gente nem percebeu. Poucas são as pessoas que têm prazer no que fazem, talvez por isso a vida se tornou mais feia.

O que você quer ser quando crescer? Bombeiro, jogador de futebol, cantor, médico, aeromoça, professor, piloto de avião. Tinha cada uma, mas as respostas eram baseadas acima de tudo no prazer, na satisfação que aquela profissão poderia dar. Mas saíram advogados, servidores públicos, padres, vendedores, metalúrgicos, ou qualquer outro profissional de qualquer outra área chata que tem por aí, menos o que se queria ser de verdade. A vida, com suas exigências, acabou levando o sujeito para determinado lado, e ele, nossa!, nem percebeu, talvez nem perceba ainda.

Até o futebol anda sério! Se o jogador dá uma de Garrincha, com dribles desconcertantes e jogadas inesperadas, é quebrado pelos adversários. O cara que sai para comemorar o gol com a torcida leva cartão amarelo. E tirar a camisa, então, nem pensar. Cadê a malandragem, o bom humor, a irreverência dos brasileiros? Os homens sérios e de mal com a vida estão acabando com tudo.

Proibiram o cigarro nos ambientes públicos. Proibiram a gente de ir a um bom restaurante e beber. Proibiram a bebida nos estádios. Proibiram inclusive de levar bandeira ou até mesmo uma inocente garrafinha de água num jogo de futebol. Devíamos dizer para esses caras: parem de proibir! Daqui a pouco a gente não vai poder sair de casa!

Para os intelectuais de plantão, assistir novela é a expressão mais bojuda da perda de tempo. Feito avarento, conto os meus minutos, cada segundo que se esvai... Mas diversão e entretenimento fazem tão bem à vida... Por que tudo tem que ensinar?

Se assistir “Guerra dos Sexos” ensina alguma coisa, eu não sei. Mas que diverte, ah, diverte! Não quer assistir, ótimo, não assista! Não quer sair por aí brigando com o sexo oposto, como fazem Otávio e Charlô, certíssimo, faz muito bem! Mas que a leveza deles poderia muito bem colorir a sua vida tão séria e cinzenta, ah, isso poderia!


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