Marco Feliciano não é um acaso, é o retrato do Bra

13 de Março de 2013 Ullisses Salles Crônicas 874

Marco Feliciano não é um acaso, é o retrato do Brasilistão.

Quando critico a sociedade brasileira, sou imediatamente criticado por generalizar, como se fosse possível fazer um texto sobre cada um dos 200 milhões de brasileiros. Já tentei explicar em outro texto que não é possível não generalizar, que mesmo a mais importante pesquisa sobre a sociedade brasileira foi feita com alguns milhares de indivíduos em um universo de centenas de milhões de pessoas.

Quando falo que não gosto da sociedade brasileira é evidente que não gosto de alguns aspectos dominantes na sociedade tupiniquim; seja ele a insistência em chegar atrasado, em jogar lixo no chão, em falar alto, em ser desonesto... Se você não se atrasa, não é desonesto e não fala alto, minha crítica não é para você, mas dou minha vida se você não conhecer um único brasileiro com uma ou todas essas características.

De todo modo estou aqui para falar sobre um aspecto bem específico da nossa sociedade, um tema grave que tem sido debatido, mas não com a veemência necessária, um tema que tem sido subestimado por muitos brasileiros. A religiopatia da inquisição evangélica. Uma doença grave que se alastrou como uma pandemia sem cura e que tornou nosso querido Brasil na mais nova teocracia do ocidente; o Brasilistão.

Como sempre tenho seguido atento os desdobramentos da mais nova afronta ao bom senso, a coroação do mau gosto, a confirmação do conchavo político, do casamento abjeto entre cargo público e religião. O novo presidente da pasta das minorias e dos direitos humanos não é uma aberração, não é uma exceção, ele é fruto da nossa sociedade, ele é filho dessa terra, ele é a conseqüência de muitos aspectos que já cansei de criticar em textos anteriores. O pastor que pede número de cartão de crédito para fieis é o resultado preanunciado há décadas, quando a administração pública abandonou uma das suas principais obrigações; instruir o povo brasileiro.

Você e eu sabemos que governo algum se preocupou em educar o povo para que o mesmo se mantenha ignorante e vote nos canalhas de sempre sem pedir muito em troca. Mas isso era nos anos 80, quando o Brasil voltou a ser uma república. A partir daí houve uma mudança gradativa no método usado para manter o povo ignorante e feliz. Os pacotes assistencialistóides do atual governo garantiriam 3 eleições consecutivas, encheu o país de dependentes das mais diversas bolsas, sem educá-los nossa sociedade se tornou rapidamente ainda mais alienada o que culminou na imbecilização do Brasil e na obrigação de importar mão-de-obra qualificada para os poucos cargos técnicos que ainda restam no país exportador de farelos sem portos, estradas e aeroportos.

No entanto, esse jogo de compra de votos através de pacotes assistencialistóides parece ter chegado ao limite, mesmo porque não é possível mais onerar os cofres públicos com mais bolsas-esmolas sem quebrar o país. Então para arrebanhar mais votos e garantir as próximas eleições alguns políticos perceberam que a ignorância do povo brasileiro tinha uma outra conseqüência imediata e de fácil exploração. A exploração da fé.

Observando que há duas décadas as igrejas evangélicas vinha formando uma nova safra de milionários com dinheiro oriundo da doação não declarada ao imposto de renda e com influência tamanha ao ponto de fazer os fieis doarem casas, poupanças, abandonar famílias ou se tornarem “heterosexuais”, os políticos viram que esse seria o novo eldorado no garimpo de dinheiro e votos. Uniram o útil ao inútil e o que se viu foi uma verdadeira revolução religiosa no país que outrora era a maior nação católica do mundo.

Surgiram igrejas em todos os lados, canais de TV, rádios e não demorou muito para a indústria fonográfica abocanhar essa nova teta. Criaram programas, produziram Cds, formaram bandas e uma miríade de ex subcelebridades falidas também descobriram subtamente a palavra do Senhor. Atrizes pornô, jogadores de futebol, cantoras e cantores que queimaram sua fortuna com sexo, drogas e rock&roll se converteram como em um milagre às igrejas. Mas não parou por aí, assassinos também viraram pastores e pregadores da palavra de deus sendo recebidos de braços abertos por suas agremiações... Agremiações essas que curiosamente recebem assassinos mas condenam homossexuais honestos, trabalhadores e pagadores de impostos...

Diante de tanta fé, dinheiro e ignorância era evidente que as ratazanas do poder público não iam ficar de fora desse banquete a céu aberto, desse open bar da fé. Algumas siglas trouxeram para si pastores que já garimpavam esse dinheiro fácil há algum tempo, outros políticos descobriram também a palavra do senhor e começaram a pregar eles mesmos em nome de deus e do monte de dinheiro que ele traz consigo. Foi assim que o Brasilistão começou a ganhar força. Pois uma vez no poder público, eleitos com os votos do seguidores ignorantes e felizes, os barões da fé não têm apenas o dinheiro fácil dos religiopatas, eles têm também o dinheiro fácil do poder público e mais do que isso, têm a máquina administrativa a seu favor, podem criar, mudar e impor leis que acelerem o processo de bitolação do povo que já era ignorante e agora é também bitolado.

A eleição do pastor odiador de negros e homossexuais à presidência da tal pasta dos direitos humanos não foi um acaso, não é um aborto, uma exceção, essa eleição se desenhou nos últimos 20 anos, foi anunciada em detalhes, mas sempre ignorada pela sociedade por pensar que ter um povo ignorante, religioso e feliz não é ruim, pois religião é algo bom, que se não tiver nenhum efeito positivo tampouco causará algum mal; ledo engano. Tivéssemos sido menos bonachões e combatido a ignorância ao fim da ditadura, tivéssemos exigido escola para todos, tivéssemos combatido o machismo, a homofobia no seu berço, hoje não teríamos esse canalha presidindo essa pasta.

O sórdido menage a trois entre política, fé e ignorância é o resultado do desejo de muitos brasileiros, pois o tal pastor chegou onde chegou graças ao voto popular e depois dos seus colegas de quadrilha. Ele não tomou o poder sozinho, ele não precisou nem usar a força, ele representou o desejo do povo brasileiro. Nós somos o lixo do qual ele se alimenta e se torna cada vez mais forte. Nós somos exatamente como ele é. Odiamos negros, odiamos homossexuais, odiamos ubandistas, odiamos nordestinos, odiamos gordos, odiamos... Nos tornamos um país fragmentado e dividido em pequenos interesses, pois sem coesão é mais fácil de nos manipular, se nos uníssemos além da cor da pele, da religião, da orientação sexual, da região de nascimento ou do sotaque, seríamos mais fortes no combate aos tiranos, sejam eles políticos, pastores ou ambos...

E se você não é evangélico, não votou no pastor, não é homofóbico, nem odeia negros ou nordestinos... Então os outros estão se fazendo ouvir mais do que nós. Eis a nossa culpa nesse triste quadro, somos passivos demais... Eles se uniram, foram arrebanhados e hoje dominam o país. Exija um estado laico de verdade, não tenha vergonha ou medo de criticar as religiões, as igrejas e seus gurus falastrões. Lugar de religião não é na administração pública, e todas as igrejas precisam ser podadas o quanto antes. O MP tem que parar de assistir tudo de braços cruzados, assistindo passivamente a um show de charlatanismo e enriquecimento ilícito. Do contrário, em muito pouco tempo não estaremos mais aqui debatendo sobre o tema, pois não haverá mais liberdade para fazê-lo.


Enviado por Ullisses Salles em 10/03/2013
Código do texto: T4180759
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