Ciúmes. Sensações furiosas nos abrasam o corpo quando amamos. O ciúme, talvez, brota antes do amor, mas junto da paixão. Poder, possuir, tomar e cuidar, quantas justificativas criamos para atenuar a decepção de outrem com nossa reação compulsiva.
Certa vez, lembro-me de uma curvilínea morena, a quem apreciei. Exceto sua face, nada além meus lábios lhe tocaram; ela era singularmente provocante, cabelos longos, lisos, esvoaçantes, pele como jambo e rígidas coxas grossas. Seu andar alternava o movimento das ancas, auxiliado pelo salto alto que lhe trincava as panturrilhas.
Sempre foi comigo gentil e respeitosa. Mas numa tarde, aquele véu olímpico que me encantava foi à lama. Proseando com um casal de colegas, descobri que minha musa brilhava os lindos olhos negros ao falar, entusiasmada, com um amigo meu. Este, não nego, tinha lá sua beleza, a qual devia ter provocado nela a mesma sensação que eu sentia ao vê-la.
Uma ardência breve me tomou o peito. “Vadia!” – pensei. E aos poucos o véu se desmanchou no ar...
No dia seguinte, ela me cumprimentou com a mesma docilidade. Entretanto, já não era a mesma coisa. Como disse no início, o Ciúme quer possuir, e eu, sem sequer amá-la, já a desprezei. Não sei se ela retribuía-me a atração, talvez jamais saiba; mas se não beijei seus lábios, de ciúmes me mordi.