Padre Beto, de Bauru

18 de Maio de 2013 sergio geia Crônicas 1059

Quando me lembro de Bauru, me vem à cabeça o bauru do Bigode, que meu pai comprava pra gente comer à noite. Me refestelava com o dito cujo, uma delícia que a gente não encontra mais. Talvez encontre. O que não tem mais é o carinho do meu pai, o aconchego da mesa posta, do pivete que pegava o sanduíche pra comer assistindo ao jogo do Palmeiras na televisão. Eita... Mas falemos sério. Ou tentemos.

Ele diz que pode existir amor num relacionamento de pessoas do mesmo sexo. Que se a ciência humana hoje constata que não dá mais para enquadrar o ser humano em categorias estanques, mas em seres sexuados, e que o amor pode surgir em qualquer dos níveis (homossexual, bissexual, heterossexual), a igreja precisa estudar melhor isso, senão estará cometendo um pecado: o de não saber amar o seu próximo.

Ela reagiu furiosa. Disse que o padre cometeu um gravíssimo delito de heresia e traiu o compromisso de fidelidade à igreja a qual ele jurou servir no dia de sua ordenação sacerdotal. E soltou a mão pesada: decidiu excomungá-lo.

Padre Beto não é qualquer um. Filho de católicos, diz que se aproximou da religião por causa da admiração a católicos progressistas como dom Paulo Evaristo Arns (SP), dom Mauro Morelli (RJ) e dom Pedro Casaldáliga (MT). Depois de ordenado foi para a Alemanha estudar teologia, onde também concluiu o doutorado em ética. Diz que lá encontrou liberdade para refletir e questionar. É formado em história e direito. É professor universitário.

Fico pensando ao ler essas notícias: essa igreja mais uma vez perde o bonde da história. Nem com Francisco querendo dar uma oxigenada em tanta coisa velha, esse povo não toma tento? Não pode mais falar? Eles querem o quê, um cordeirinho de cabeça baixa que não questiona nada?

Nenhuma sociedade, grupo ou instituição evolui sem os questionamentos dos descontentes, daqueles que veem a coisa podre e botam a boca no mundo, que têm a coragem de enfrentar a maioria, sofrendo na própria pele e pagando o preço, às vezes alto demais, por nadar contra a corrente. Se não fosse assim estaríamos ainda escravizando negros, vendendo as indulgências, condenando os “assassinos” de Jesus.

Até onde me lembro, Jesus Cristo sempre teve uma postura inclusiva, abraçando prostitutas, pagãos, doentes e cobradores de impostos. Nos dias de hoje, se estivesse aqui entre nós, estaria abraçando homossexuais, transexuais ou qualquer humano que não se enquadrasse nos padrões e rótulos da sociedade mesquinha-dominante.

E não venham dizer que o padre sabia de tudo isso quando foi para o seminário. O que vocês querem? Uma igreja estagnada, fechada no seu egocentrismo, pecadora, que pune os que ousam discutir qualquer invencionismo humano rotulado de divino?

Padre: como diz seu xará, o frei, “não pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo. Todo amor não decorre de Deus? Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus”. Continue botando a boca no mundo. Queremos ouvir.

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