Tête-à-tête

08 de Junho de 2013 sergio geia Crônicas 614

Maluquice né não, mas os terráqueos das próximas gerações não vão saber mais o que é um tête-à-tête. Pobre deles. Estamos caminhando para o isolamento absoluto, para a vida em casulos.

No restaurante, na praça pública ou até mesmo numa festa de aniversário os pivetes não desgrudam de seus brinquedinhos eletrônicos. Muitas vezes estimulados pelos próprios pais, que querem sossego pra comer seus filés e beber suas cervejas, não?

Até os adultos não desgrudam deles. Eu mesmo já vi no restaurante a coitada da mulher escutando uma boa música, tentando puxar um papo, trazer o maridão de volta e o mané lá, com seu iPad, lendo o jornal, os e-mails, ou algo importantíssimo, tamanho o nível de desconcentração do cara para com as coisas à sua volta.

E o que é isso senão viver num casulo?

O virtual está enterrado de cabeça em nossas vidas. Um parabéns no face, um bate papo no skype. As pessoas estão se conhecendo em sala de bate-papos, trocando informações, fotos. Sexo virtual.

Por falar em sexo, não inventaram a tal da boneca Valentina? Os prostíbulos não estão tremendo nas bases? O solteirão vai comprar uma dessas, vai pegá-la, se é que você me entende, quantas vezes quiser, na hora que quiser, e se não quiser mais ela fica lá, guardadinha, quietinha, esperando a próxima. A que ponto chegamos...

Em compensação, a humanização dos animais está virando moda. Enquanto todo o moderno está afastando as pessoas das pessoas, por outro lado, é cada vez mais comum tratar um cachorro como alguém da família. Dormem dentro de casa, na cama, fazem ginástica, passeiam, escovam os dentes, até se casam. Será que é porque não falam? Não colocam o dedo nas nossas feridas?

Esses dias, lendo um livro do Nuno Cobra, ele falava desse mal que é a televisão, que acabou por afastar as pessoas umas das outras. Ele agora deve estar de cabelos em pé, se é que ainda os tem, com essa profusão de coisinhas eletrônicas que cada vez mais coisificam as pessoas, e isso desde a mais tenra idade.

As crianças vão crescendo sem saber conversar, sem saber expor pontos de vista, sem saber se posicionar. Ficam na frente da telinha do computador vendo imagens, conversando com os amigos na linguagem dos horrores, se transformando dia a dia em seres insociais.

Se bem que muitos de nós já viramos coisas há muito tempo. Fazemos tudo que todo mundo faz sem questionar. Vamos à igreja, não sentimos nada, não trazemos nada, mas estamos lá toda semana. Um compromisso com Deus. Posso estar sendo um robô, mas estou ali, e nem penso sobre isso, nem enxergo, nem tenho consciência.

Estou casado, infeliz, insatisfeito, mas uma nuvem densa cobre tudo. Assim vou até os meus dias finais, somente porque tais “valores” foram escritos na minha alma e eu nem percebi.

A vida é cheia de condicionamentos, meu amigo. O primeiro passo para fugir deles é descerrar a placa, digo, a venda.

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