Nos braços de Ariella

20 de Julho de 2013 sergio geia Crônicas 575

Meus amigos Jota Castilho, Edgard Fernando Cicino de Lara e Guilherme Bitencourt estão até agora tentando compreender o que aconteceu. O veneno era poderoso, e se todos ainda conseguem ver a luz do dia, se eu estou aqui, vivinho, em condições de escrever, foi porque recebemos um atendimento rápido e eficiente.

Lembro-me que me acordei com uma sequência de tapinhas na face, pensando estar mergulhado num sonho oriental. O ataque foi tão cruel, que a sinuosidade da serpente azul até agora provoca sustos e calafrios naqueles que queriam apenas se divertir.

Tudo começou muito estranho, com uma nuvem branca cobrindo a cidade. Questionávamos se seria um nevoeiro denso - incomum num final de tarde -, ou apenas poluição, tão fácil de enxergar num céu de São Paulo em tempos invernais.

Estávamos sentados no chão, até então distraídos, conversando, bebendo, contando piadas de sacanagem, tratando a noite como mais uma em centenas de dezenas de noites, em que saborear o aconchego das amizades, do riso leve, da vida descompromissada, é o que existe de mais importante.

O primeiro e sorrateiro ataque aconteceu por volta das onze, e nós nem nos demos conta. Depois, num papo de bar, regado a vinhos e chás, quando os efeitos do veneno começavam a nos deixar sonolentos, percebemos que todos tinham, na medial da coxa esquerda, uma ferida aberta.

Naquele momento, concluímos o óbvio: tínhamos sido atacados, e aí, meu amigo, já era tarde. O efeito não demorou, e mesmo embaralhada por densa camada de névoa, ou poluição, sei lá, a consciência percebeu a armadilha: havíamos sido fisgados, sem dó nem piedade, pela beleza exótica de Ariella.

Ainda que pudéssemos imaginar o tamanho dos riscos que corríamos, a beleza da serpente, que ondulava pelo assoalho, era tão envolvente, que simplesmente fez com que perdêssemos a noção do perigo. Ali não era a cobra venenosa que rastejava, e que vibrava e que impactava; ali era simplesmente Ariella, com seus inimagináveis tons de azul, que numa hora eram de um brilho visceral, noutra, de um opaco gritante (que fazia destacar o couro branco). Mesmo porque, quem imaginaria que nas imediações da Vila Mariana, fosse existir beleza tão exótica quanto perigosa?

Acho que fomos robotizados. A partir daquele momento não estavam mais ali o Jota, o Fernando, o Gui, o Sergio. Viramos zumbis. Estávamos a serviço da ardilosa serpente, que com seus jeitos e trejeitos, movimentos que iam e vinham, que subiam e desciam, nos encantava de tal forma que enxergávamos - ah, e todos enxergaram - um sorriso caliente nos dizendo o que fazer (como se cobra sorrisse!).

A sedução foi tamanha, meu amigo, que repetimos a dose. Sem titubear, entregamos a medial da coxa direita para ela.

Ali, não importava mais nada. Só queríamos saber de nos jogar nos braços flutuantes de Ariella.

Mas sobrevivemos.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

Leia também
" Amar é" há menos de 1 hora

Amar e como voar, no mais azul dos céus. É sentir a sensaçao de estar n...
joaodasneves Poesias 4


PAU DE FITAS há 5 horas

PAU DE FITAS Dançam as raparigas cá em roda D'um mastro d'onde fitas ...
ricardoc Sonetos 4


PAU DE FITAS há 5 horas

PAU DE FITAS Dançam as raparigas cá em roda D'um mastro d'onde fitas ...
ricardoc Sonetos 3


Falta de Amor ao Próximo há 9 horas

A razão de viver é amar... Mas a maioria das pessoas vive o amor ao din...
a_j_cardiais Poesias 31


Amor a Deus x Amor ao Mundo há 10 horas

Nos dias do autor não havia automóveis como os luxuosos que existem em no...
kuryos Artigos 8


A Origem e a Razão de Ser de Tudo há 15 horas

Deus não criou todas as coisas para depois intentar formar uma Igreja. Ao...
kuryos Artigos 16