No supermercado

10 de Agosto de 2013 sergio geia Crônicas 612

A manhã chuvosa me fez lembrar Eça: “o tempo, que andara pela serra tão alegre, num inalterado riso de luz rutilante, todo vestido de azul e ouro, (...) com uma daquelas mudanças que tornam o seu temperamento tão semelhante ao do homem, apareceu triste, carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão pesada e contagiosa que a serra entristeceu”. E eu também, mas a vida continua.

Na frente do supermercado, após dar aquelas sacudidas providenciais no guarda-chuva, abri a listinha e percebi que era enorme, sendo que na metade direita havia uma sequência infindável de produtos de limpeza. Tira-limo. Bom, limo é aquela substância viscosa que surge em lugares úmidos. Deve funcionar melhor que um produto genérico. Lustra-móveis. Este é fácil e dispensa apresentações. Limpa-alumínio. Ah, fácil também. Para as panelas, para tirar a gordura, a fuligem, a mancha de leite queimado. Desengordurante. Hum... Limpador perfumado. Sei... Limpeza pesada. Tá bom...

Essa pluralidade de produtos de limpeza - comecei a divagar, enquanto ia tomando os corredores - é o que a sociedade humana chama de “especialização”. Uma criação que valoriza o profundo em vez do superficial. A especialização chegou aos produtos de limpeza.

Médicos. Você está com dor de garganta. Vai procurar quem? Quem? O otorrinolaringologista (que nome simpático). Coração? Pressão alta? Falta de ar? Quem? Quem? Cardiologista. Dor de cabeça. Enxaqueca. Tontura. Hum? Neurologista. É a especialização. Um médico especializado para cada tipo de problema.

Pastas de dente. Uma é boa para as gengivas mais sensíveis. Outra clareia os dentes. Olha só, tem gente que paga os horrores para deixar os dentes branquinhos. Pois é, é só comprar uma simples pastinha, e começar a usá-la. Bem mais barato. E muito mais fácil. Você não precisa parar de tomar café, coca-cola, não dói. Tem pasta com sabor, e tem aquelas genéricas, que servem pra tudo, ou não servem pra nada, ou simplesmente servem para uma boa higiene bucal.

Produtos para os cabelos. Tem shampoo que é bom para cabelos normais, oleosos, quebradiços (fico pensando: o que são cabelos normais?). Tem shampoo que é bom para prevenir a caspa. Tem shampoo que combate a queda de cabelos. Ah, e tem o condicionador. Tem também shampoo e condicionador juntos, o 2 em 1. Uma beleza. Tem também um que é shampoo, condicionador, anticaspa, antiqueda, e promete brilho e suavidade, olha que maravilha.

É isso, pensei, agora entendendo a superabundância de produtos de limpeza na minha lista. Século 21 e todas, todas as necessidades humanas são atendidas prontamente por uma indústria preocupada, não com os próprios lucros, imagina, mas com a cor dos meus dentes, o brilho de minhas panelas, ou de meus cabelos (para ser mais romântico), com o perfume de minha casa ou de meu vaso sanitário, com a mantença de meus pobres fios de cabelo, ou com a sensibilidade de minha gengiva.

Pena que já não vou estar aqui no dia que ela inventar o comprimido para a morte. O sujeito tá morrendo e alguém aparece com o bichinho na mão. Se bem que isso nunca vai acontecer. A indústria é preocupada comigo, mas não é burra. Ela sabe das coisas.

Onde será que fica o amaciante?

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