Do quente ao frio, do raso ao fundo.

26 de Agosto de 2013 Rebeca Rocha Crônicas 725

O ceu estava em tons quentes, da cor do que sentia naquele exato momento. Pensou que não poderia ser coincidência. Até o universo concordava com o êxtase que vivia ineditamente. Caminhou mais alguns quilômetros em direção ao que achava ser para onde deveria ir, passando por pessoas indiferentes e imersas em seus mundos particulares, preocupadas demais com seus próprios dilemas para notá-lo ali. Melhor assim. Havia momentos em que só queria ouvir a si mesmo e passar despercebido, para variar.

Lembrou-se do livro que começou a escrever e jamais terminara. E que tristeza sentia por isso. Pairava sobre a sua cabeça a impressão de que a fonte simplesmente havia secado. Tudo bem, se consolou. Perfeccionista que era, jamais se contentaria com uma obra rasa. Precisaria de um bom motivo para continuar a preencher aquelas páginas...

Seus devaneios foram interrompidos abruptamente por alguém que sequer havia notado o impacto que havia causado ao passar por ele. Aquele perfume. No ímpeto, as sensações voltaram num turbilhão e o frenesi tomou conta de cada célula do seu corpo, em um choque de realidade impressionante. Achava que nunca mais fosse sentir aquele cheiro. Foi egoísta acreditando que apenas ela tinha o direito de possuir aquela fragrância. Mas estava ali, naquela rua, naquele caminhar disperso e simplesmente a mágica aconteceu – tudo veio à tona em um momento particularmente improvável. O coração martelou o peito ao olhar para trás, na esperança de ver aqueles cabelos longos esvoaçando ao vento, os mesmos que um dia ficaram presos aos seus lençois brancos. Desejou poder ver novamente os braços e pernas que se moviam ritmados num andar elegante que conheceria mesmo em cem anos de privação, e as pernas vacilaram. Óbvio que não era ela, não havia como ser.

Sentiu que o acaso havia pregado uma peça nele. Por que cruzar o caminho daquela pessoa aleatória numa rua qualquer e despertar tudo aquilo que nunca mais viveria? Achou melhor desviar o pensamento daquilo. Já estava em frangalhos quando avistou o fim da rua interditada, onde dobraria à direita e seguiria por mais alguns metros até o crepúsculo engolir as poucas horas da tarde que se despedia. Enfim, tomou consciência de que havia perdido a noção das horas, mas não estava disposto a perder mais nada. Muito menos a oportunidade de eternizar aquilo.

Não esperou o elevador, subiu correndo as escadas. Chegou ao 7º andar com os cabelos grudados na testa fria, arfando e praguejando por ter fumado durante tantos anos. Sentou-se em frente ao manuscrito outrora inacabado e decidiu que, agora, havia motivos suficientes para rechear as páginas em branco que estavam à espera daquele conteúdo, de uma profundidade que apenas ele era capaz de mensurar.

O ceu esfriou e deixou de ser púrpura. E foi em sua sinestesia peculiar que sentiu o coração reaquecer.

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