Era uma pessoa adorável, não tinha vícios. Tinha suas limitações, todos temos. Nunca achei defeitos nela. Mulher corajosa, mas humilde. Se tivesse com a razão enfrentava até o capeta. Carinhosa, abnegada, tinha uma palavra amiga para todos, e todos se sentiam felizes e seguros ao seu lado. Belos tempos foram aqueles anos que vivemos juntos. Inesquecíveis!
Assim era Sally. Quê mulher bárbara! Interessante é que ela não respondia “amém” para tudo que eu dizia. Não, não era Amélia... Era Sally, a mulher de verdade. Ralhava, brigava, rebatia, replicava. Cinco minutos depois - eu, sentado na varanda lendo o jornal - e ela chegava de mansinho... eu podia sentir seus braços me envolvendo por detrás de mim, e um beijo carinhoso. Era um momento mágico, sem palavras, mas com grande significado. Era rápido, mas etéreo... e em seguida já voltava para seus afazeres domésticos. Oh homens do mundo! Não me invejem... Mas um calafrio me percorria as entranhas... Quê emoção!
Quem disse que não discutíamos. Decerto que sim... mas no final cada um admitia suas razões. Mas geralmente o errado era eu. Sally era perfeita. Havia me dado uma filha, está hoje com 14 anos. Bela e inteligente como a mãe. Mas Sally era única, nunca haveria outra como ela. Certa vez peguei-a discutindo com o síndico do prédio onde morávamos. Motivo; reajuste do condomínio, que ela achava injusto. Nas reuniões de condomínio fazia questão de examinar a planilha cuidadosamente e discutia item por item. Seis meses depois a elegeram síndica. Mulher de fibra, pavio curto, não deixava nada pra depois. Falava na bucha, na cara, fosse com quem fosse.
O orçamento doméstico ficava por conta dela, sempre econômica, comedida nos gastos mas sem mesquinharia. Por isso mesmo nunca tivemos problemas financeiros. Vivíamos à larga, despreocupados. Ela sempre tomava as rédeas da situação.
Sexo frágil? Olha, amigos, posso afirmar que eu me sentia muito seguro ao seu lado. Uma leoa de dia, na lida diária, uma gatinha mansa e carinhosa em nossa alcova. Assim era Sally. Para mim, nunca houve mulher como Sally. Confesso que fui muito namorador, mas Sally era a minha namorada favorita. Brigava muito comigo, fingindo não ter ciúmes. Possessiva sim... e eu tinha esta sensação de posse, eu pertencia à ela... Hoje sou nada sem Sally... Sem ela sou um náufrago. Não imaginam a grande impressão que me causou na primeira vez que a vi. Foi cômico, bárbaro, inesquecível... Gosto de recordá-la. Nesta época eu era bem jovem e num daqueles arroubos da juventude, quando pensava que o mundo era só meu, conheci Sally. Foi no campus da universidade. Sally era caloura, e eu, soberbo, por estar terminando o último período, olhei-a com um ar superior, com desdém, na minha condição de veterano.
Ela não gostou, naturalmente... Estava com outras amigas, e eu, de porre - confesso - estava com meus amigos, eufóricos, na iminência de receber o grau de bacharel... Meu olhar de superioridade a incomodava. Até que em dado momento ela esbravejou:
- O que está olhando? Perdeu o nariz aqui?
Confesso que ela me surpreendeu. Todos os olhares voltaram-se para nós dois. Surpreso, eu não esperava tal reação. Mas dei o troco. Passado algum tempo, chamei o garçom em particular - estávamos na cantina - e sem que ela visse, dei-lhe uma boa gorjeta para que botasse uma barata de borracha na sua mesa. Foi hilariante! Uma cena dantesca. Gritinhos de horror. Eu e meus amigos - um deles o dono da famigerada barata - procuramos disfarçar. Mas ela, intuitivamente, olhando ao redor, desconfiou de mim. Contendo o riso, mantive-me de costas. Até que um dos meus companheiros ergueu o dedo indicador pra mim, dizendo baixinho: - Olha atrás de você. No que eu virei dei de cara com ela, que, furiosa, me olhou fixamente e aconteceu... Uma bofetada cinematográfica !
Quê mulher temperamental! Ainda tentei segurá-la em vão. Saiu pisando duro. Para não ficar sem graça optei por uma gargalhada repentina. Mas acreditem, amigos, que eu retribuí aquela bolacha muitas vezes... mas com beijos, ardentes, creiam-me. Seis meses depois estávamos casados. Até hoje me pergunto, intrigado, o que eu tinha de especial para que se apaixonasse por mim. Ela era demais para mim.
Com ela não tinha meio termo, era tudo ou nada. Temperamento forte. Ninguém poderia imaginar que aquela leoa que rugia e sabia se impor a todos sofria uma metamorfose à noite. Na intimidade do nosso quarto passava de dominadora a dominada. Mansa, graciosa, exuberante. Ah! Como era ardente a minha Sally! Sabia amar como ninguém... E eu sucumbia aos seus anseios carnais. Era o homem mais feliz do mundo. Acho que qualquer homem seria ao lado dela. Eu disse homem - não meio-homem - que não se abatesse quando ela estivesse irritada, em pé de guerra.
Para ela eu era um super-homem. E eu me orgulhava disso. Sobretudo por saber compreendê-la. Aprendi muito com ela. Como fui feliz ao seu lado! Era gostoso despertar pela manhã com suas carícias despretensiosas, e eu me aninhava em seu regaço como um bebê ávido de proteção.
Depois acabávamos fazendo amor, espontaneamente, deliciosamente. Ainda posso imaginar seus folguedos, erotizantes. Inda posso ouvir seus sussurros e gemidos, que se confundiam com o chilrear do seu melro na gaiola. Era o seu pássaro de estimação. Quê deliciosa orquestração! Enquanto o melro gorjeava, fazíamos amor. Quando eu acabava, permanecia dentro dela. Ela gostava. Às vezes eu chegava a adormecer de novo sobre ela, numa paz infinita.
Assim era o nosso amor. Nunca encontrei outra como Sally. Era charmosa e sensual como ninguém. Seu sorriso era contagiante. Sua voz, maviosa, como o canto de pássaros canoros. Seus olhos, expressivos, inebriantes. Certa vez perguntou-me o que ela significava para mim. Respondi sem pestanejar; “a oitava maravilha do mundo”. Amigos, creiam-me, Sally delirou... Saltou-me ao pescoço e cobriu-me de beijos, calientes... Quê emoção! Arrepio-me ao lembrar. Rimos muito depois. Depois choramos. De alegria também se chora...
Desta feita, não me esqueço o que ela me disse certa vez e que me impressionou deveras; “Se alguém lhe disser que você nunca fez nada de importante, não ligue. Porque o mais importante já foi feito; você! Nunca mais esqueci isso... Para mim nunca houve mulher como Sally... Fascinava-me com seus encantos. Costumo compará-la à Penélope. A deusa da fidelidade. Aquela que bordava, o tempo todo, durante a longa espera pelo regresso do amado Ulisses.
Até que um dia tive a maior decepção da minha vida. Sally me traiu. Estou preso agora, cumprindo pena por homicídio doloso. Matei Sally. Foi um dia de mau agouro. Nunca esquecerei Sally.

("Contos Avulsos" pág. 30 – 11 de outubro de 2009)