Revistas velhas

28 de Setembro de 2013 sergio geia Crônicas 929

Motivo de brigas conjugais, o espaço ocupado por uma centena de revistas “Época”, velhas, que tenho aqui na minha estante, como um paraíso para os leitores da casa, pode estar com os dias contados.

Descansando, na companhia de livros que dormem serenamente à espera de alguém que os pegue e os leve para a cama quentinha, assim sempre entendi as revistas que, guardadas as devidas proporções, também poderiam executar dignamente este ofício, além de muitas vezes servir de base a uma pesquisa séria, um trabalho escolar ou, no mínimo, como companheiras para as horas solitárias perdidas num calor de um banheiro.

Certa vez, minha mulher queria entregar algumas delas às tesouras, para ilustrar um trabalho escolar. Eu urrei como urso brabo, dizendo que aquilo seria um crime contra a cultura, que onde já se viu, que servissem ao matadouro as revistas de fofocas, que as minhas revistas não, quês e quês e quês...

Mas hoje, repassando tudo, vendo a coleção esquecida nesses tempos virtuais, nem mesmo cumprindo minimamente seu papel de companheira de banheiro, chego à conclusão (mais uma vez, diga-se) que minha mulher estava coberta de razão.

Nós homens não damos o braço a torcer, mas a mulherada tem mais sabedoria no trato das coisas miúdas. Espere. Espere. Se você entendeu isso, apague! De jeito nenhum eu quis dizer que elas não entendem de coisa graúda, pelamordedeus, não é isso. Mas essas coisas práticas, do dia a dia, de como organizar uma gaveta, a mesa do jantar, separar o material reciclável, administrar uma casa e, por que não dizer, uma vida, ah, isso é com elas! Nós homens não sabemos arrumar nem o bolso da nossa calça.

Vejam só: ninguém consegue guardar a bagagem da viagem no porta-malas do carro com tanto jeito como a minha mulher. Olhando, você pensa: “não cabe”. “Cabe!”, ela diz. E com jeitinho, ocupando todos os espaços, mala pra cá, mala pra lá, isopor, bolsa com utensílios, comida, caixa de cerveja, tudo vai tomando o seu lugar e, de repente, como num passe de mágica, tudo está lá, organizado, limpo, firme.

Um dia eu me meti a esperto e guardei as coisas. Coube tudo. Uma beleza. Mostrei pra ela com orgulho. Ela não gostou muito do que viu, achou meio bagunçado, coisas apertadas, outras frouxas, mas não mexeu. Logo no primeiro quilômetro começamos a ouvir um barulhinho de isopor. Puts, é chato pra cacete! Fomos ouvindo até lá. Eu ouvi muito mais, é claro.

Coisa que não tenho paciência é com manual de instrução, bula de remédio, modo de usar etc... Dias desses peguei um tubinho que veio com a tinta e só consegui ler a palavra “condicionador”. Não tive dúvida. Mas estranhei, porque o negócio era oleoso, não espalhava, deixava o cabelo duro. Minha mulher entrou no banheiro e, com paciência, se dispôs a ler a caixinha. He, he, he, he. Não era condicionador. Era um óleo para usar apenas algumas gotas, e depois do banho. Olhei para o tubinho e só tinha a metade...

“Filhotaaa!!! Quando precisar de revista pra recortar, pode pegar as do papai, tá?!”

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