Entrei na livraria sem saber ao certo que tipo de leitura ou de livro eu compraria. O fato é que quando passo por circunstàncias estressantes, entro na paranóia ou, se preferir, na febre do consumismo e necessito comprar qualquer coisa que seja. É o regime da compensação: minha preocupação, mágoa e lágrimas pelo bem estar de um desejo satisfeito. Acho que escolhi - como a querer abrandar a ressaca, ingerindo garrafas e garrafas de uma bebida mais leve - consumir livros por conta do peso psicológico do pós consumo ficar diminuído. Afinal, livro é cultura e afasta o fantasma da culpa - não comprei uma Fiorucci ou aquele Azarro sem ter dinheiro para fazè-lo. Ao menos isso.

Foi com a consciència menos pesada que percorri os vários títulos que se apinhavam a minha frente em ilhas de papel e capas coloridas. Li cuidadosamente cada sinopse; mas nada interessou. Comecei, então, a vasculhar os títulos das "organizadas" prateleiras. Foi quando parei diante de uma estante em que se encontravam os volumes de auto-ajuda. Por alguns minutos fiquei ali parada, verificando, a princípio, os títulos sem muita atenção e empenho, pois era um gênero que, até então, nunca me tinha chamado a atenção.

Achando graça da minha ação, peguei um exemplar de título curioso e comecei a folheá-lo. Li várias frases no imperativo que demandavam um narcisismo irritante e pareciam acreditar que a mente do leitor pudesse ser, de alguma forma, programada por aquele arranjo de palavras, alterando radicalmente a forma com o que o receptor vê a si e ao mundo que o cerca. Ia absorta em minhas reflexões até encontrar, numa das páginas, uma afirmação que me arrancou do abstracionismo: 'você é o protagonista de sua vida e não vítima dela; assuma o comando'.

O mais esquisito é que a mesma frase tinha sido o pivô do meu estresse horas antes, numa discussão acirrada com o meu quase ex marido. Reli para ter a certeza de que lera corretamente e a minha constatação conduziu-me a reflexões mais profundas: ser o protagonista não significa, de forma alguma, ter a autoria do enredo; ora, protagonista todos somos - alguns são protagonistas menos egoístas e mais altruístas; outros exatamente o contrário e outros, ainda, passeiam pelo meio termo, oscilando entre uma e outra forma de ser. Quem não é o personagem principal de sua própria vida, não é mesmo? E vítimas todos, em algum momento, fomos e somos. Acredito, outrossim, que somos e devemos ser os autores de nossa história. Nossas escolhas nos conduzem à vitimização ou não. O nosso livre arbítrio não reside no espaço vago dos personagens que habitam nosso enredo; ele está em cada escolha que fazemos: das palavras e ações aos pensamentos mais abstratos. Ser protagonista, como propõe a frase no livro, pouco importa. A autoria, nos levando à conscientização das escolhas, a fim de que possamos corrigi-las futuramente, é que deve ser priorizada, pois ela irá conduzir-nos ao pódium dos adventos cofortáveis ou nos tornar a vítima de alguém ou de alguma circunstância algoz.