Jamais tive tendência ao saudosismo. Sempre apreciei o novo e mantive as portas abertas para o conhecimento e avanços tecnológicos. Nunca imaginei que fosse me pegar vasculhando o passado e sentindo uma ponta de incerteza acerca dos benefícios dessa mesma tecnologia. Mas quando se tem filhos, o improvável é sempre provável e acabamos por sucumbir diante do que, antes, eram supostos absurdos. E não foi diferente comigo.
Há sempre alguém ou algo em nossa vida que acaba por nos ser o contra senso, ou seria o senso? Prova disso, é que, dia desses, estive sentada com a minha filha de quinze anos em sua cama. Sobre o que conversávamos? Sobre nada. Fiquei cerca de vinte e cinco minutos ali parada, presenciando suas mãos percorrerem frenéticas o teclado do seu laptop. O único som que havia era o do próprio programa de computador, avisando que alguém estava teclando para que ela respondesse. Tentei ainda fazer alguns ruídos para que me percebesse ali sentada, mas de nada adiantou; estava vidrada. Tinha seus olhos, pensamentos, e todos os seus órgãos vitais voltados, anexados e, porque não, hipnotizados por um pequeno aparelho eletrônico. Depois dos vinte e cinco minutos, resolvi me manifestar de outra forma: deitei paralelamente a ela, também de cara para a pequena tela, e comecei a ler, claro, em voz alta, o que lhe escreviam e o que ela respondia. "Deixa de ser curiosa! Eu, hein, sem noção, mãe!", protestou em reação a minha indelicada - reconheço - atitude, fechando, em seguida, as janelas que estavam abertas. Sorri, mas não arredei o pé de onde estava."Você não vai ficar aqui fuçando, vai?" - continuou, sem responder às pessoas que piscavam sem parar em diminutas janelas no canto inferior do objeto luminoso. Como nada respondi, ela, contrariada, puxou para si o repugnante aparelho, proferiu um palavrão e foi sentar à escrivaninha.

- O que tem aí que não pode ser visto e torna quase um crime qualquer a tentativa de aproximação? - perguntei irônica.

- Nada - respondeu distraída, já sorrindo com o que lhe haviam escrito -estou só conversando com o meu namorado. Posso?

- Namorado? Que namorado?! - espantei-me, pois não o conhecia e nunca tinha ouvido falar dele.

- Ele mora em São Paulo. - completou triunfante.

- Que bom! Só a quatro mil kilômetros de distância! - disse, pensando alto - E onde foi que você o conheceu?

- Aqui. - respondeu, apontando para a pequena máquina.

- Como assim? Aí?

- É, mãe, na internet, é lógico! Parece que não pensa!

- E estão namorando?

- É.

- Como pode ser isso? Namoro sem conhecer pessoalmente, sem pegar na mão, sem primeiro beijo, sem saídas escondidas...

- Isso é coisa de velho, mãe! Na sua época era assim! Agora não é mais!- Argumentou, como se eu fosse do início do século passado.

Achei mesmo, naquele instante, que pertencia a um passado histórico bem distante. Levantei-me, pensativa; abri a porta e saí. O mundo virtual, definitivamente, entrara na vida das pessoas a ponto de elas considerarem fato antigo e ultrapassado o contato pessoal. Senti saudade da minha adolescência descomplicada e livre dos terapeutas e psicólogos. Frustrei-me por não poder oferecer a ela, pelo menos naquele momento, a mais vaga ideia do que era manter um relacionamento, pelo menos em meu conceito, de verdade: a paquera, o dançar juntos nos bailes ou discotecas,a emoção do encostar na mão, o delírio do primeiro beijo... Fui para o meu quarto, refletindo sobre as causas deste estado de coisas. Mas meus pensamentos foram abruptamente interrompidos pela voz grave do meu marido.

- Onde você estava?

- Lá no quarto com a Vanessa. - respondi, ainda um tanto atordoada.

- Ela ainda está no computador? Precisamos pôr horário pra que aquela menina - é como ele se refere a minha filha quando está zangado - não fique até altas horas, conversando sabe-se lá com quem. E o que é pior, dizendo a um monte de marmanjos, que não faço a menor ideia de quem sejam, que os ama, como vi em um outro dia.

- Ah, é normal - respondi, na verdade com o pensamento bem longe dali.

- Como normal? Você acha normal dizer eu te amo para qualquer um, para uma pessoa que nunca viu e para outros que mal conhece?

- Não,- emendei rapidamente - normal é gostar de ficar falando na internet com os amigos; bem, pelo menos, eu acho ou achava.

O fato é que nem eu mesma mais podia discernir o que estava ou não dentro da normalidade. Muitos dos jovens e adolescentes, quando apoiados, cuidados e amados por suas respectivas famílias, são tremendamente afetuosos. São capazes de se doarem muito mais facilmente do que os jovens e adolescentes da minha geração. No entanto, "no meio do caminho" há um objeto eletrônico que acaba por mediar toda a riqueza de uma troca afetiva face a face.

Até que ponto o computador é um bem tecnológico a nosso serviço, algo útil de que podemos dispôr, é difícil precisar. Acredito, antes, que os jovens e adolescentes estejam a serviço dessas máquinas poderosas e de seus sites de relacionamento envolventes. Se as coisas continuarem no pé em que estão, chegará a época em que tudo, absolutamente tudo, pertencerá a um formatado mundo virtual e caberá na tela de um computador. É, acho que está na hora de rever conceitos e repensar valores...
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