Gosto de nomes de cidades. Alguns. Da sonoridade. Não sei até que ponto isso é relevante ou serve para alguma coisa. Deve ser tão importante quanto uma ferpa fina encravada na sola dura do meu pé. Mas você pode brincar com os sons modificando os significados, por exemplo; pode ler poesia explorando ritmos e sonoridade; pode até procurar cacófatos em títulos jornalísticos, olha que coisa interessante.

Baseado apenas no critério da sonoridade, o repertório de nomes de tudo quanto é tipo que chama a atenção apenas pelo timbre é grande. Há pessoas que gostam, por exemplo, de libélula, saudade, alameda, apodítica, sacrifício, guatemalteco, pirilampo. Tem gente que detesta zebu, espectro.

Mas o meu negócio é cidade. Nome de cidade. Não sei se a sonoridade do nome influencia em alguma coisa; de repente, alguma dimensão ainda não explorada pela física quântica; no índice de desenvolvimento humano (IDH), vai, ou na capacidade das cidades em proporcionar uma vida mais feliz aos seus moradores, com tempo para umas brejas, churrasco, mulher, futebol e cineminha.

Bacana é você associar o som da palavra a alguma coisa que lhe vem à mente. Veja bem, estou falando de uma imagem, e aqui não importa o significado do vocábulo. Ao contrário, quanto mais esdrúxula a imagem, melhor. Mais divertido. Mas não pode inventar. Tem que ser a imagem que vem, por mais chinfrim que seja.

Por exemplo: gosto do nome da cidade polonesa que irá receber a próxima Jornada Mundial da Juventude. Cracóvia. Nome sólido. A imagem que me vem é a de um estilete despedaçando um travesseiro de penas de ganso. Não sei por quê! E isso não importa, ô! O que importa é a imagem... Talvez ela venha viajando das profundezas de meu inconsciente pra me dizer alguma coisa.

Assim como Cracóvia, gosto de Varsóvia. Vejo algo maciço nele, de aço, com sustância. Varsóvia me lembra a noite, uma noite molhada, fria, com ruas mais parecendo espelhos de água, lâminas que se formam e passam a refletir o alaranjado das luzes; pessoas andando agasalhadas, ushanka na cabeça.

Ubatuba também me soa bem. Vejo a figura abolachada do João Bobo. Devem ser memórias infantis. Paraty. Almyr Klink. Um veleiro. Essa está maculada. Mariana é um nome doce. Vejo a minha avó sentadinha no sofá da sala, assistindo ao Silvio Santos e fazendo tricô.

Tenho um fetiche todo especial por Amsterdam. Amsterdam. Que bem me faz aos ouvidos. As imagens são muitas e multifacetadas. Um casaco de veludo. Jovens com livros nas mãos. Um sujeito rouco. Chocolate quente. A diferença de Amsterdam para os outros nomes é que ele me chama, me atrai. Como um magnete.

Não para comer steak com feijões, perambular de barco pelos canais, passear pelo Vondelpark de bicicleta, ver com os meus próprios olhos os desenhos de Anne Frank na parede de seu quarto, ou flanar livre, leve e solto pela Red Light District. Isso tudo eu já conheço. Sem desprezar as inúmeras justificativas esotéricas, viagem astral, fenômenos sobrenaturais ou o diabo a quatro, o que sei é que Amsterdam vive em mim. E eu nela. Faço sempre uma revisita. Uma viagem à essência da vida. Um déjà vu.