- Mas afinal de contas, vocês estão ou não namorando? - Perguntei, tentando manter parte da minha concentração no engarrafamento.

- Não. Não é bem namorar...

- Então, estão ficando? - Insisti, tentando entender ou mesmo classificar o tipo de relacionamento que minha filha vinha mantendo.

- Também não. Estamos mais que ficando. É mais que ficar.

   Neste instante acredito que o meu semblante se traduziu em um ponto de interrogação. Por ter trabalhado a minha vida toda com os adolescentes, aprendi muita coisa que pertence ao mundo enigmático desses seres que estão entre a vida adulta e a infância, oscilando perdidamente entre uma e outra. Entretanto, não estava conseguindo entender o tipo de relacionamento correspondente à “escala das representações sociais de relacionamentos amorosos” que tinha até então. Por ter compreendido minha expressão, sem necessidade de palavras, minha filha esforçou-se um pouco mais em sua explicação:

- É assim, mãe: é mais que ficar e menos que namorar, entendeu?

   Meu Deus! Colocaram um décimo de grau na já contubarda escala dos relacionamentos amororsos! Até não muito tempo, havia etapas bem definidas: amizade, namoro, noivado, casamento. Depois, criaram o "ficar" e, consequentemente, vieram os ficantes ou os joga-fora. Mais recentemente, para tudo ficar melhor definido, inventaram o "pegar", ponto imediatamente anterior ao ficar, e que muitas vezes serve para traduzir o fato de haver mais “intimidade” entre o casal com menor compromisso ainda que no ficar. 

   Hoje os adolescente e os jovens - e por que não incluir, entre os usuários da terminologia, os próprios adultos - ficam em seu primeiro contato; depois, se a “coisa” evoluir, pegam, antes de saber se querem mesmo assumir algo estável e namorar. Nada mais justo; é um ritual que testa o que os dois pretendentes sentem um pelo outro, ou testa o entrosamento sexual da nova parceria, ou ainda os dois. Mas agora, essa de mais um ponto na escala, entre o pegar, o ficar e o namorar, é para mim uma bela novidade!  Então, adiantei-me:

- Que nome vocês dão para isso que você está vivendo agora?

- Nome? Nome pra isso o que, mãe? - Questionou confusa.

- Assim,olhe, ficar é quando você vê uma vez ou mais vezes, sem quase compromisso; pegar é quando você é mais ‘íntimo’ de uma pessoa, sem nenhum compromisso; e a isso, que é mais que ficar ou pegar e ainda menos que namorar, como vocês chamam? É pós-ficar ou seria pré-namorar?

- Ah, mãe! Sei lá! Ainda não tem nome, não!

   Os jovens criam nomenclaturas e estágios "evolutivos" para seus relacionamentos amorosos em nome de uma liberdade que mascara, por ausência de oportunidades, a falta de práxis e experiências significaticas no campo da interação humana. Assim, entra em cena a liquidez amorosa, perdida em relacionamentos cada vez mais curtos, na gradação do que não se pode medir e na banalização dos sentimentos. Isso é um efeito da pós-modernidade e seus avanços tecnólógicos nos quais tudo é muito mais fluido. É a era digital, com relacionamentos digitais, virtuais e solitários. Interações de cristal, que se partem ao menor balanço do vento, pautadas em mídias sociais.

   Bem, a nós, que vivemos na modernidade líquida, mas não pertencemos a essa geração digital, resta lamentar e aprender a gradação, compreendendo, na medida do possível,  suas fulgazes relações na escala que tenta mensurar  os relacionamentos humanos.