As coisas que dizemos, infelizmente, não podem ser alteradas e nem podemos voltar no tempo para apagá-las. Imagine você o quanto evitaríamos se tivéssemos um dispositivo que nos refreasse todas as vezes em que fôssemos falar e as palavras da nossa arquitetura discursiva não passassem pelo crivo da razão e da alteridade. Imagine como seria se possuíssemos um alarme que soasse sempre que magoássemos, pelas palavras, alguém com ou sem a intenção de fazê-lo.

   Pensando bem, os prédios não dormiriam;os bairros não dormiriam; as cidades não dormiriam porque seria um tocar constante de alarmes em uníssono. Uma situação ensurdecedora e patética que nos provocaria repulsa e para a qual logo arrajaríamos um jeito - o bom e velho jeitinho - de fazer calar, ainda que fosse através de uma cirurgia castradora que nos pusesse em risco de morte ou em risco de não mais poder falar - o que seria menos mal.

   Sempre ouvi que há três coisas que não voltam ao seu estado original: a bala de um revólver após ter sido disparada,  uma pedra atirada e palavras pronunciadas. E, pensando nessas impossíbilidades, é que consinto o poder das palavras. É fato: elas magoam; são capazes de nos atingir como punhos fechados; nos enlevam ou nos atiram ao chão.

   Para lidar com palavras, é preciso autocontrole, sabedoria, compaixão, alteridade...É preciso, sobretudo, cuidado com o que se diz, pois podemos matar no outro a paciência, a estima, a flor do sentimento e, não obstante, sermos atingidos como um reflexo da nossa ação. Afinal, não podemos nos esquecer de que "o peixe morre pela boca".