O Pamonheiro

25 de Outubro de 2013 Valdir Gomes Crônicas 971

   Novamente estou aqui sentado em meu lugar
de sempre.



  A cada dia passa por mim um figura
diferente. Anteontem o engraxate. Ontem o vendedor de doces. Hoje, por ser
quarta-feira, o pamonheiro.



  E lá está ele, com o seu carrinho todo
caracterizado parado sobre a calçada. Um guarda-sol e banquinhos. Transeuntes passam
de um lado para outro, ora desviando-se do insistente vendedor, ora parando e
comprando o produto. Alguns consomem ali mesmo. Outros levam para seus lares ou
talvez para seus locais de trabalho, pois aqui ao redor existem enormes office-edifícios.



  E o pamonheiro fala pouco. Às vezes um
chamado aqui: —
“Olha a pamonha!” Às vezes outro chamado de atenção ali —
“Quer experimentar?” O moribundo se dá ao luxo até de oferecer uma rápida
degustação. Acredito que tem funcionado, pois às vezes dezenas de pessoas o
cercam e, quando elas se dissipam, o observo contando dinheiro e o metendo nos
bolsos. Agora ele está mais esperto: toda sua féria ele não mais coloca em um só
bolso... depois do dia que fora assaltado e levaram tudo que havia lucrado,
distribui então em vários bolsos. Assim, se alguém o visitar, perderá pouco.



  De vez em quando uns fiscais da prefeitura
param lá. Verificam sua licença e depois se vão. Em outra ocasião para uns
policiais. E o pamonheiro lhes oferece o seu produto. Consomem, conversam, sorriem.
Parece um novo mundo, um mundo de gente feliz... feliz? Como as pessoas podem
ser felizes, andando, trabalhando, comprando, comendo... de manhã, uma linda
manhã. De repente já meio dia e depois tarde... vem a noite e... bem o dia
passa rápido. Tudo passa rápido, mas não para o meu pamonheiro. Lá continua ele
vendendo o seu produto derivado.



  Pergunto-me que sorte de pessoa eu sou. Não
me imaginaria vendendo pamonha. Quando é época de safra, o milho barateia, mas
quando está fora de safra, o milho sobe de preço e, daí, a choradeira dos
clientes:



  — Ih! Tá muito caro essa pamonha!



  — O preço tá amargo!



  — Hoje não!



  E lá vai o pamonheiro, sorridente, sem perder
a placidade, explicar tal motivo; repete tudo para cada questionador e não se
cansa e nem se amofina.



  Eu não teria tal paciência. Mas ele tem. Às
vezes o flagro me observando. Deixa resvalar um sorriso, joga a toalha nas
costas que é um trejeito seu e logo se ocupa em higienizar o carrinho com seus
produtos.



  E mais pessoas chegam. Observam. Degustam e
compram. E depois o pamonheiro sorri, conta o dinheiro, distribui pelos bolsos
e depois organiza novamente. Uma repetição sem tamanha para ele nada enfadonha.



  Eu continuo aqui, sentado, sem me mover
muito. As pessoas passam por mim, me observam. Algumas meneiam a cabeça
penosamente, outras nem me olham.



  Fico mesmo observando o pamonheiro,
enquanto o tempo vai passando. Como persevera em sua labuta. Pobre coitado! Como
é incansável. E o dia vai terminando.



  Então o pamonheiro recolhe os bancos e a
cobertura do carrinho. Sorri. Vendera tudo! Mais um dia concluído com sucesso.



  Vejo ele então atravessar a rua e vir em
minha direção. Quando se aproxima de mim, abaixa-se um pouco e joga três moedas
no chapéu aos meus pés, com olhar penoso e talvez pensando quanta sorte ele
tem!



  Eu lhe agradeço com um — “deus lhe pague!” e
ele vai embora, empurrando seu carrinho, todo feliz por ter feito uma boa ação
ou talvez sorrindo pela boa féria do dia e ansioso para chegar em sua humilde
casa e rever a família. Daqui a pouco rastejarei para uma marquise e ali
pernoitarei.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem permissão do autor.

Leia também
Pelo Espírito há 4 horas

Nada do que Jesus cita no Sermão do Monte nos capítulos 5 a 7 do evangelh...
kuryos Acrósticos 4


A Linha da Vida há 6 horas

O futuro é daqui a pouco, mas talvez não possamos vê-lo. A vida é com...
a_j_cardiais Poesias 27


Obedecendo o Vento há 21 horas

As folhas caem, e eu quero falar sobre isso, sem me preocupar com o feiti...
a_j_cardiais Poesias 38


"Verão na Europa" há 23 horas

Hoje começou o verão Mas todos os dias, são dias de verão O verão na...
joaodasneves Poesias 8


"Maria Emília" há 1 dia

Meu amor Antes de tu nasceres Raramente eu pensava em ti Iria com o pass...
joaodasneves Acrósticos 9


"Sou" há 1 dia

Sou o livro sem palavras Sou a historia por contar Sou o céu sem estre...
joaodasneves Acrósticos 10