Renato está ali sentado na cadeira há mais ou menos meia hora. Como de costume, Sueli
está atrasada.
Ele parece ansioso. De tempo em tempo olha o relógio, observa as horas... em outra ocasião pede para a garçonete lhe trazer outro copo d´água que toma num gole só. Ajeita a gravata, passa a mão pelos cabelos, seca o rosto com um lenço.
Escolhera a mesa de sempre. Ao lado da janela que dá boa visão para rua. De repente novamente um filme lhe passa pela mente e ele começa a viajar pelos pensamentos. Lembranças profundas fazem com que Renato titubeia um pouco ali. Sente vontade de sair correndo... não precisa estar ali! Sua ausência simplesmente fará com que tudo se prolongue e, de repente, aja arrependimento de ambas as partes. Todavia ele se censura que não seja uma boa ideia, afinal, a ideia do reencontro fora dele. Percebera que para Sueli tudo bem... tanto faz. Mas, para Renato, tudo era importante. Os detalhes eram importantes. As motivações eram importantes. Os compromissos importantes. E a fidelidade? Se tudo era tão importante, por que então estava aquilo acontecendo novamente? Será que houve comprometimento de verdade? Ou simplesmente estiveram vivendo por conveniência?
Renato somente se acalma quando vê Sueli surgir lá na porta do estabelecimento. Já passa das oito horas da noite, mas ele não comenta nada, pois conhece muito bem o temperamento da esposa. Diante da situação tão preocupante, ele deixa escapar um sorriso, quando percebe que ela viera mesmo usando o vestido lilás. É claro que parece um pouco desbotado e apertado no corpo da mulher, até atrapalhando-a andar. Mas ela o estava usando, da mesma forma que ele dentro daquele antiquado terno marrom.
— Desculpe pela demora, mas foi o transito — justifica-se ela, forçando um sorriso.
— Tudo bem. Não estou lhe cobrando nada... — fala ele. Então pergunta: — Trouxe o porta aliança?
— Ah! Sim — responde ela abrindo a bolsa e tirando a caixinha vermelha aveludada e a colocando sobre a mesa.
Ele sorri. Na realidade força um sorriso. Tudo tem de parecer natural. Até porque o ambiente começa a ficar cheio de clientes.
— Podemos começar? — Pergunta ele.
Ela responde com a cabeça afirmativamente.
Renato então pede para ela: suco de couve com limão e gengibre, um pastel de Belém, uma porção de fritas. Para ele, uma cerveja, também porção de fritas e outra porção de frango.
— Não enjoou disso ainda? — Pergunta ela, deixando escapar um sorriso.
— Devo lhe dizer que tudo isso engorda, hoje não é saudável... mas se lembra daquele tempo?
Claro que Sueli se lembra. Fora quando Renato a pedira em casamento. Ambos estiveram sentados ali, naquele mesmo estabelecimento, naquela mesma mesa, naquele mesmo horário... fora emocionante! Agora novamente e tantos anos já se passaram. Imperceptivelmente Sueli deixa sua mente vagar e, enquanto toma sua cerveja, Renato também se deixa viajar para o passado. Tantas agruras passaram juntos! Quantas lutas, perseveranças e o casamento sobrevivera até então. Desejaram ter a casa, conquistaram. Um bom emprego, conseguiram. O carro também, mas o maior desejo, filhos, ainda não foram presenteados.
Mas este encontro não é um reencontro ou uma forma de reviver aquele grandioso dia. Para ambos, simplesmente o cumprimento de um compromisso firmado àquela época. Ambos firmaram um segundo compromisso que, se por ventura houvesse em suas vidas a rescisão do casamento, ambos se reencontrariam ali, no mesmo estabelecimento, para desfazer as juras de amor. Para isso, deveriam também usar as mesmas roupas.
E ali estão. Ela enquanto toma o suco observa Renato. Ele, por sua vez a observa e sente o coração pulsar. O momento crucial está chegando: a hora de retirarem as alianças e colocarem-nas na caixinha. Renato retira a dele. Já Sueli luta para retirar a sua... parece colada ao dedo. Ambos esboçam um sorriso. Todavia, profundamente estão tristes, pois aquela ocasião não é para comemoração, mas sim, para tristeza e a certeza de que viverão, após esse momento um enorme vazio em suas vidas.
Renato se oferece para ajudá-la a tirar a aliança... em dado momento ela segura sua mão, deixa resvalar uma lágrima e o beija longamente. Ele corresponde.
Ambos repetem juras de amor eterno. Renato recoloca a sua aliança, paga a despesa e saem abraçados do estabelecimento, enquanto a garçonete os observa, lembrando-se que certamente qualquer outro dia retornarão, como já o fizeram tantas vezes anteriormente, quando a falta de compreensão lhes bater na porta.