Justificativas

29 de Outubro de 2013 Valdir Gomes Crônicas 837

    — Ah, minha Santa
Clara! Clareai a minha mente!



    Pedro consultou o relógio. Quase três horas da manhã.
O que dizer para a Clarinha, quando chegar em casa àquelas horas? Caramba, que
situação... tudo porque não conseguia 
auto-controlar-se e evitar um rabo de saia sequer. Um dia foi a
ascensorista do prédio, aquela estonteante morena que lhe cantou uma vez só e
já o conquistou. Chegou em casa tarde da noite. E qual desculpa? O pneu do
carro furou e a chuva ainda atrapalhou-o. Depois veio a estagiária do
escritório que o convidou para conhecer o seu apar­tamento e acabou até
dormindo por lá. Qual desculpa? O velório do tio de um funcionário. E a vez que conheceu a Celina, secretária do patrão? Foi com
ela que extrapolou na capacidade de criar desculpas! Ficou com a loira um
final de semana inteirinho e, para Clarinha, sua bela esposa e ótima dona de
casa, estava participando de um seminário no estado da Bahia em pleno carnaval.
Era difícil acreditar, mas ela demonstrou que sim e Pedro ganhou mais essa. E
tantas outras mulheres lhe passaram nesses últimos meses e ene desculpas foram
dadas. E agora, o que teria para dizer em defesa própria? Parou o carro e ligou
para o Luiz Alfredo. Esse era amigo, muito amigo mesmo e a reciprocidade era verdadeira. Ninguém atendeu. Depois tentou o Antônio, mas de nada
adiantou. Já na casa do Aristóteles
quem atendeu foi a mulher dele que foi logo largando o verbo:



    — Onde vocês estão?



    — Quem? Eu ?!



    — Isso sim. Não adianta esconder,
Pedro, eu sei que ele está com você porque
ele disse isso.



    Meio, ou melhor, totalmente sem jeito
e inteiramente à favor do amigo que com
certeza também estava dando uma fugidinha, Pedro considerou.



    — Tudo bem, Verinha, o Aristóteles está comigo.



    — Posso falar com
ele?



    — Bem, é que agora não dá. Como o
carro furou o pneu, ele foi até um
borracheiro desses que funcionam 24 horas.



    — Está bem. Quando ele voltar, peça para me ligar.



    Pedro assumiu o compromisso e desligou
o celular. Agora, além de ter de arranjar uma bela desculpa, tinha ainda que
proteger o amigo.



     Pedro dirigia com cuidado. Às vezes
até parava o carro. Que desculpas teria que dar para chegar àquelas horas em
casa? A do pneu furado já estava
desgastada. A morte de algum amigo também, E se dissesse que o motor
parou? Não. Também não. Por isso teve que comprar aquele carro novinho e ainda
tivera que fazer um seguro total e que ainda exigia da seguradora, no caso de acidente ou roubo, outro carro imediatamente em
substi­tuição ao sinistrado até a
apuração do caso.



    O que fazer?



    Mesmo assim avistou um poste.



    — "Talvez eu bata nele e
justifique o meu retardo"— pensou, mas logo se livrando da ideia, uma vez
que estava em outra extremidade da cidade.
Com certeza a mulher não acreditaria. Um sequestro! Isso, um sequestro! Ë incrível, caro
leitor, como a mente humana é
capaz de criar situações nada conven-cionais para justificar um ato impensado e compensar o mal
proceder.



    Os olhos de Pedro brilharam. Um
sequestro relâmpago ainda não fazia parte do seu currículo de desculpas
esfarrapadas. Como fazer? Não foi difícil; a mente trabalhou melhor que o motor do carro. Ele iria se dirigir até um bairro de
periferia, mais precisamente uma favela. Antes, porém, passaria no caixa eletrônico do banco e sacaria todo o dinheiro disponível
para o momento. Esconderia o dinheiro. Abalroaria o carro em um muro qualquer. Depois quebraria o vidro da porta do
motorista, para justificar a invasão dos seqüestradores. Em seguida rasgaria as roupas, a fina camisa de seda, sujaria a gravata e também a
calça. Ah, se livraria de uns dos sapatos italianos que mais adorava. Se livraria também dos documentos, pois seqüestradores que
se prezam limpam tudo mesmo. Avisaria
a polícia e então se dirigiria para casa.



    E foi o que fez.



    Pedro nem estacionou o carro;
deixou-o à disposição do porteiro do edifício que
todo espantado olhou-o, pois a aparência do suposto sequestrado era séria mesmo. Pedro só apanhou a chave do apartamento.



    — Não quer que
avise a polícia? — Perguntou o porteiro.



    — Não precisa. Já fiz isso —
respondeu Pedro, enquanto aguar­dava o elevador.



    Quando chegou na porta deu uma longa
inspirada, abriu-a e entrou. Estranhou
que a mulher não o recebendo.  Cautelosamente sentou-se como de costume no sofá e ligou a
televisão. Então Pedro viu um papel com
uma mensagem. Apanhou e leu. Era da Clarinha.



    "Querido, desculpe por não ter
podido avisá-lo. Mamãe está muito mal e tive que viajar às pressas. Comprei passagem no ônibus das seis e só chegarei lá amanhã às
sete. Tem comida pronta no freezer. Se quiser, pode esquentá-la no microondas. Me liga amanhã.
Beijos."



    Nesse ínterim o porteiro interfonou,
dizendo que os policiais o esperavam para detalhar o sequestro.

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