Crônicas de um [Des]encontro

11 de Novembro de 2013 Lutéo de F. Imbuet Crônicas 831

Capítulo I - O Ruído


Branca; era a cor daquela tampa de petróleo industrializado, que agora estava mais uma vez sendo tirada para abrir o recipiente de vidro. Naquela hora não havia ninguém no balcão de madeira, apenas eu e o rapaz de barba mal feita e camisa listrada que começou a misturar um punhado de fluidos e cheiros soturnos no recipiente envidraçado.

E quando a tampa finalmente voltou ao seu devido lugar, o rapaz apertou um botão vermelho boleado, e foi naquele apertar que meu temor sonoro começou, pois era ali, naquele apertar de botão que estava outra vez escondido O Ruído.

Aquele ruído seco e mecânico, vertical, gélido como o aço, que ironicamente triturava os cubos de gelo para que se juntassem o álcool destilado. O doloroso Ruído vagava agora pelo ar, apesar de eu pensar que ele havia se tornado habitual, naquela noite o ruído se mostrava agudo e doloroso, como se, de um dia para o outro, eu tivesse desacostumado a ele.

Seu estorvo ressoante era, de fato, quase que inumano, pois só os grunhidos de um porco no abate se comparavam ao ressoar do ruído em meus tímpanos, me fazendo revirar os olhos, e tudo isso não bastava para me matar.
Em meio a minha dor agonizante, o ruído continuava a girar, misturando o conhaque às fatias de pêssego cortadas, condensando ainda uma pitada de leite condensado, que quase não era perceptível ao paladar de quem nunca tivesse experimentado o resultado.

E eu, que já deveria estar acostumado, sentia agora ruído ecoar dentro do meu crânio vazio;  ele soava ensurdecedor e irritante, tal como um casa de abelhas, que agora parecia estar alojada dentro do meu ossudo vácuo cerebral.

Não sei dizer que horas eram exatamente, pois em meu braço esquerdo o relógio de couro velho marcava dez para a meia noite, e no braço direito, o mostrador digital ainda mostrava 23:15 hs.
Eu não conseguia lembrar mais qual dos relógios estava adiantado ou atrasado, nunca fui bom com as horas, talvez por isso eu usasse dois relógios.

Mas mesmo que eu soubesse diferenciar a hora certa da errada, isso não mudaria o fato dos minutos estarem vagando em um labirinto letárgico, que se dividia entre os meus dois relógios de pulso, onde um marcava os minutos de uma hora que estava por acabar enquanto o outro calculava os segundo de um minuto que estava por dar início.

E da mesma forma que os ponteiros giravam, o ruído passou a rodopiar, em espirais sucessivas, me golpeando por dentro como um tornado sonoro, reverberando em vibrações alternadas que eram desproporcionais aos segundos inexoráveis que meus relógios marcavam.

Minhas mãos trêmulas agora se fechavam em punhos para que eu pudesse apertar as têmporas, vedando as orelhas com a mesma pressão que a dor do ruído me causava. Mas nada adiantava, pois o ruído agora parecia ser interno, e martelava minha mente com golpes secos que se assemelhavam ao dado por ossos de uma mão esquelética.

Socos que viravam marteladas sucessivas, de operários bem pagos trabalhando na obra de uma usina.

Marteladas mentais, que só me recordavam das sensações amargas da vida.
Não havia ninguém para notar minha dor interna, ninguém alem do rapaz de barba mal feita que me encarava, mas seu desinteresse ficava explícito em seu olhar de desdém, talvez por ele já ter se acostumado a receber os piores tipos de loucos naquele balcão.

No entanto, depois de me encarar um pouco mais, ele talvez tenha associado os fatos, e em um gesto (talvez) misericordioso, apertou mais uma vez o botão vermelhado...

O ruído cessou; e meu cérebro transpirou como o freio de um caminhão, mas quem sabe só eu tenha ouvido o ar escapar por meus poros, fazendo o assovio estridente que mostrava o alívio da tamanha pressão.

E enquanto eu me recuperara, o rapaz pegava um copo descartável, para então me servir a dose de Daykiri que estava preparando.

A aquela hora não havia ninguém no pequeno Boteco de Drink’s, ou mesmo na esquina  deserta que beirava a orla da cidade. A chuva salpicava de leve o asfalto cinza, e eu tomava aos poucos a bebida de sabores adocicados, espumante e ardente que o rapaz havia me preparado.

Olho para minha mão direita, e percebo que poucos minutos se passaram desde que cheguei a aquele boteco. Tomo mais uma dose e suspiro inconformado.

-Ah, A Morte sempre se atrasa – disse eu, imaginando que talvez alguém pudesse escutar.

Mas ninguém escutou, e mesmo que alguém escutasse, não poderia entender de que morte eu havia falado.

Só me restava a calada da noite, pois agora o ruído maldito já não me atormentava. Ele fora substituindo pelo silêncio tenebroso daquela terça-feira de abril, que beirava a quarta em um de meus relógios.

Dois relógios e eu não sabia ainda dizer as horas exatas, só sabia que era quase meia noite de terça, e A Morte (como sempre) estava atrasada para mais uma de nossas audiências marcadas.

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