Esquecidos - I

19 de Novembro de 2013 Mark Diaz Crônicas 740

Certa vez, ainda criança, olhando a noite com meu pai,perguntei á ele de onde vinham as estrelas. Ele fez um silencio incomodo por um tempo e depois respondeu citando Mario Quintana:
- “A noite acende as estrelas, pois tem medo da própria escuridão” meu filho.
Pensava que ele falava sobre a noite.
Meu nome é Caio Rodrigues, eu trabalhava em um escritório de advocacia no centro de vitoria e Apesar do diploma não era tão bem sucedido quanto se esperava da profissão. Morava em um pequeno apartamento, tinha um carro simples e poucas posses. Acabava de passar por um difícil divorcio. Rebeca e eu nos conhecemos na faculdade, ela estudava Publicidade, era linda com um sorriso radiante e eu ainda conseguia convencer a mim mesmo que ia ter uma carreira brilhante. Eu entedia o porquê de ela querer me deixar, só não aceitava.
Estava sofrendo de ”crise de meia idade precoce”, tinha voltado a fumar e fazia visitas frequentes a loja de bebidas do fim da rua. Meu chefe me mandou tirar algumas semanas de férias para me distrair, Sugeriu que eu viajasse para algum lugar tranquilo. Como se meus problemas fossem desaparecer quando voltasse. Mesmo achando que seria inútil eu não tinha muita escolha, então decidi visitar minha família no interior do estado. Na sexta mesmo fiz as malas, peguei o carro e cai na estrada com o sol se pondo a minha frente.
Ao contrario da grande maioria eu adorava dirigir a noite, a estrada era mais silenciosa. Depois de algum tempo dirigindo me deparei com um bloqueio. Parei no acostamento e fui conversar com um dos guardas que estavam sinalizando. Não havia reparado em como estava frio e nem na neblina que começava a se formar.
- Boa noite senhor. Houve um deslizamento a alguns Km a frente, vou pedir que retorne e pegue um desvio.
- Deslizamento? Mas não choveu. Como pode ter ocorrido um deslizamento?
- parece que alguma rocha se soltou da colina e bloqueou completamente a estrada, o desvio vai atrasar sua viajem em pouco mais de algumas horas, por sorte ele passa por um pequeno vilarejo, tem um posto de gasolina no caminho eu ma hotel onde pode passar a noite se achar conveniente.
-Ah sim, entendo. Obrigado!
Minha viajem para fugir do estresse estava começando a se desviar de sua função. Voltei ao carro e peguei meu celular para ligar e avisar que me atrasaria, mas estava sem sinal. Havia me esquecido de encher o tanque de gasolina antes de sair e estava morrendo de fome. Eu realmente teria que parar nesse vilarejo no meio do nada a qual eu não sabia nem o nome e a essa altura dormir não parecia uma má ideia.
Voltei e peguei o desvio como o guarda havia dito, dirigi algum tempo na escuridão total, a neblina ficava cada vez mais densa e tive que dirigir com mais cuidado. Acabei demorando mais que o esperado para encontrar algo que pudesse chamar de civilização. Passei por uma placa que tinha escrito “Bem vindo a Alto Vale”. Nunca tinha ouvido falar, nem mesmo estava no mapa, nela indicava que havia um posto de gasolina logo à frente. Sorte a minha, pois minha gasolina não me deixou andar nem mais 1 km. Parei no acostamento, peguei uma lanterna, um galão vazio, acendi um cigarro e comecei a andar.
Enquanto me aventurava através da neblina com nada mais para se ver alem de infinitas arvores de eucalipto, só conseguia pensar em como eu era um verdadeiro fracasso. Como podia ter me esquecido de encher a droga do tanque antes de viajar? Talvez por isso Rebeca tenha me deixado! Como ela iria querer passar o resto da vida ao lado de uma pessoa tão irresponsável, distraída e despreocupada? Ela merecia mais e com certeza o desgraçado há quem um dia chamou de chefe por quem ela me trocou a daria. Eu queria mata-lo, mas eu deveria estar agradecido, o fato de ele ser bem sucedido Cirurgião impediu Rebeca de me tomar tudo no divorcio, fazendo assim com que eu ficasse com o apartamento, o carro e a coleção de moedas do meu pai. Eu ficaria até com a guarda das crianças se tivéssemos tido alguma, não que eu não pudesse ter filhos, era apenas eu fracassando outra vez.
Passei alguns minutos caminhando e praguejando quando ouvi o disparo de uma arma de alto calibre ecoando pela floresta, o barulho dos pássaros fugindo assustados era ensurdecedor, mas o silencio que se fez depois foi aterrorizante. Fiquei parado no mesmo lugar o que pareceram horas esperando por algo, como se alguém fosse aparecer na estrada, mas não apareceu ninguém. Pensei em voltar para o carro, mas me dei conta que não adiantaria nada então continuei andando apreensivo esperando a cada segundo ouvir outro disparo.
Algum tempo depois me deparei com um posto de gasolina. Havia uma caminhonete vermelha e uma carreta carregada com toras estacionadas, havia movimento dentro da loja de conveniências e a luz do único poste piscava de um jeito muito“convidativo”. Ao lado da bomba havia um homem sentado que cochilava com seu boné no rosto, quando me aproximei percebi que o homem na verdade era um rapaz sardento de não mais que 20 anos. em seu surrado macacão havia escrito um nome:“Matheus”. O cutuquei chamando por seu nome e ele acordou em um pulo assustado.
- Hã? O que? Como sabe meu nome?
- Está em seu uniforme.
- Ah, é verdade. Posso ajudar?
- Preciso que encha esse galão de gasolina pra mim enquanto como algo, pode ser?
- Sim, claro.
Deixei o galão nas mãos do jovem frentista que ficou me olhando ainda confuso e entrei na loja. O sino na porta anunciou minha entrada fazendo com que todos olhassem pra mim por um momento. Entrei e me sentei no balcão, uma mulher de cabelos ruivos veio me atender.
- Posso ajudar?
-Um café bem forte e um pedaço dessa torta, por favor.
Sentado ao meu lado, um homem de boné e jaqueta jeans (vestido tipicamente como um caminhoneiro comia um hambúrguer com uma lentidão tamanha, parecia não dormir a dias. Em uma das mesas ao lado da vitrine uma moça de cabelo curto e loiro escrevia em um caderno velho e surrado, tinha uma expressão triste e os olhos vermelhos de tanto chorar. Por fim, mais ao fundo havia um homem de barba e cabelos grisalhos que deliciava um caldo verde, que me lembrou da sopa de ervilha que Rebeca preparava pra gente. Dizíamos que “não importava o quão saboroso estivesse, nunca tinha boa aparência”, Era nosso prato secreto, só comíamos sozinhos, não tínhamos coragem de preparar para nenhuma visita. Por um momento fiquei perdido em meus pensamentos ate que voltei num leve susto com a garçonete me servindo.
- É um andarilho? Não se veste como um andarilho!- Ela perguntou.
- Por que diz isso?
- Não vi seu carro quando chegou.
- Fiquei sem gasolina uns km atrás, encostei e vim andando.
- Que sorte.
- Sorte?
- A gasolina podia ter acabado bem mais longe.
- Não chamaria isso de sorte, na verdade sorte é algo que não tenho tido ultimamente.
- De repente a sua esta para mudar.
- É com isso que estou contando.
Só então reparei no crachá da mulher, seu nome era Mirian. Tinha olhos castanhos avermelhados e pele bem clara, uma mulher jovem e bonita.
- O que faz em “Alto Vale”? -Perguntou servindo mais uma xícara de café para a mim e uma para si mesma.
- Viajem de férias. Tive de tomar um desvio, a Estrada Esta interditada, um deslizamento parece e cá estou eu.
- Mais um pouco da sua sorte?
- É.
Rimos por uns instantes e por um segundo recuperei uma alegria há muito perdida. Depois, silencio.
- É Casado?
Achei estranha a pergunta, reparei que ela olhava para minha mão e notei que ainda usava minha aliança.
- Fui - respondi tirando as mãos de cima do balcão. - Sou recém-divorciado, se é que a expressão existe.
- Existe sim e é mais comum do que imagina. – Respondeu mostrando a mão onde havia uma marca de aliança- Três anos no inferno. Um idiota sem importância que conheci em minha curta aventura á “Vitórinha”.
Era estranha a intimidade que havia se formado naquela curta conversa, parecíamos velhos amigos, me ocorreu que forasteiros deviam ser como celebridades ali. Imaginei aquelas típicas cidadezinhas onde todos se conheciam. Não querendo me aprofundar mudei o assunto.
- Ouvi um disparo ainda na estrada enquanto vinha pra cá, ouviu alguma coisa?
- Disparo?! – Ela perguntou.
- Onças. – Disse o homem que havia terminado seu caldo e agora nos olhava- O Velho Jaime Disse que sumiram três cabras do seu rebanho ontem à noite,desconfia que seja uma onça.
- Quem caçaria onças há essa hora Tobias? Pare com essas historias, Está assustando o senhor... – Mirian disse lembrando que não havíamos nos apresentado.
- Caio Rodrigues. – Respondi estendendo a mão.
- Mirian Carvalho. – me respondeu e continuou. - Não há onças em Alto vale,nunca houve.
- O que mais poderia ser Mirian? Perguntou o homem.
- Não sei, talvez o velho Jaime esteja ficando velho mesmo e se atrapalhando com as contas.
- Não me tome por um Falastrão Mirian e tão pouco sugira que Jaime esta velho demais para tomar contas de suas terras, se tem uma coisa que o homem sabe bem é quanto de algo tem em sua fazenda e se ele diz que estão faltando três cabras,estão faltando três cabras. De todo modo, posso dar uma carona para o senhor Rodrigues se quiser. – Disse virando-se para mim.
Uma carona seria muito bem vinda, estava exausto e voltar todo o caminho com a ideia de que uma onça poderia espreitar por trás de qualquer arbusto não me agradava.
- Agradeceria muito.
paguei a conta e me levantei para acompanhar Tobias, quando Mirian disse.
- Por que não passa o fim de semana em Alto Vale? Amanha começa um festival na cidade, Será divertido.
- Não sei, não tenho certeza se é uma boa ideia.
Ela pegou um guardanapo, escreveu algo e me entregou.
- Esse é meu telefone. Se resolver ficar me ligue, podemos ir juntos.
Eu acenei com a cabeça e sai da loja. Peguei o galão de gasolina cheio com o jovem frentista e segui Tobias até a caminhonete vermelha.
A caminhonete cheirava a naftalina e um terço estava pendurado no retrovisor, no quebra sol abaixado havia uma fotografia velha de um homem e uma mulher abraçando uma garotinha, estava uns 20 anos mais novo mas dava pra perceber que era Tobias. Uma caixa de ferramentas estava sobre o banco do carona, Tobias a retirou, pôs atrás do banco e ligou a caminhonete.
No caminho, conversamos e descobri um pouco sobre a sua vida, disse que era viúvo e como era difícil criar uma adolescente, falou me também do seu rancho e de seus cavalos. Tobias era criador de cavalos de raça para esporte e exposição, Fort’z era seu tesouro. 3 vezes campeão estadual no parque de exposições do Espirito Santo e uns prêmios menores por hipismo. Sua filha Andy era quem competia.
Desenrolamos uma conversa agradável até que chegamos onde meu carro estava, desci da caminhonete e comecei a encher meu tanque quando Tobias falou:
-Sabe... Mirian.. a garçonete.. Ela é uma grande garota... devia aceitar o convite dela, é realmente um festival muito bonito.
-Não sei, já devia estar na casa dos meus pais, devem estar preocupados.
- você pode ligar do hotel pra avisar e de que adianta estar de ferias se vai seguir rotinas e regras. Ouse um pouco filho, só se vive uma vez.
Assim Tobias entrou em sua caminhonete e se foi. Eu fiquei ali uns instantes pensando no que ele disse, ele estava coberto de razão, eu estava fazendo o que sempre fiz em minha vida, tentando controlar tudo e fazendo tudo errado. uma vez na vida eu podia deixar as coisas acontecerem de forma natural e ver no quedava. Terminei de encher o tanque entrei no carro e me fui, decidido a fazer algo diferente. Passei pelo posto de gasolina dei uma leve buzinada para Matheus que aparentemente estava novamente cochilando na cadeira.
Alguns instantes depois eu me encontrava passando por uma placa que dizia “Bem vindo a Alto Vale”. Era uma cidadezinha encantadora acompanhada de uma noite serena e tranquila, parecia que eu havia pulado da realidade direto para uma pintura.
não demorou muito e eu avistei o Hotel “3 corações , era um pequeno prédio de quatro andares, a arquitetura (como outras das construções da cidade) deveria ser do tempo imperial, mas como um todo a cidade parecia ter parado nos anos 30.
Entrei no Hotel e encontrei a recepção vazia, toquei uma sineta e fiquei admirando a mobila era tão surreal que eu mal pude acreditar, parecia que tudo havia sido comprado de um antiquário uma especie de tapete persa vermelho estava bem no centro, no canto haviam duas poltronas de veludo próximo a uma lareira acesa, a parede era coberta por uma papel listrado e coberta por quadros antigos, por uma porta vidro dava pra ver um pequeno salão que deveria ser o restaurante.De repente um homem saiu por uma porta atras do balcão.
- Em que posso ajudar? – perguntou.
-Preciso de um quarto, há algum vago?
- Ah sim, mas é claro. Para apenas o senhor?
Eu dei uma leve suspirada e respondi.
- É sim, apenas eu.
Retirei minha carteira e o entreguei meu cartão de credito.
- Quanto tempo pretende ficar Sr. Rodrigues?
Eu exitei um pouco e respondi.
- Três dias.
- Ah, veio para o festival, primeira vez?
- Sim, ouvi muito bem a respeito.
- É com certeza uma linda festa, o Senhor não se arrependerá.
- Eu espero que não.
- O senhor pode me seguir, por aqui por favor.
Subimos por uma escada de madeira que rangia e fomos até o terceiro andar.Chegamos ao quarto trezentos e um. O Homem me ajudou a colocar as malas para dentro e me acomodar. Tirei muinha carteira para dar uma gorjeta e ele logo me interrompeu.
- Não será necessário senhor, não aceitamos gorjeta aqui no "3 corações" A Sra Antonieta não nos permite, normas da casa.
Ele logo se virou para sair do quarto e disse:
- café é ás oito, tenha uma boa noite senhor.
O quarto era tão surreal quanto a recepção, não havia TV,ar condicionado ou nada mais sofisticado que um velho aparelho de rádio.Parecia um hotel bem antigo e que se mantia assim. Deitei na cama sem me trocar,estava exausto, parecia não dormir a dias. Olhando para o teto fiquei pensando em tudo que vinha acontecendo,pensei em Rebeca e como ela ia ficar encantada com aquele lugar, nas coisas que aconteceram desde o divorcio, nessa viajem, então me peguei pensando na garçonete,Mirian. Levei a mão ao meu bolso e tirei o guardanapo com o telefone. “Não seria uma má ideia, ficar”.

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