Turismo sexual

26 de Julho de 2011 Ullisses Salles Crônicas 1968

É muito comum ver nos fóruns de debate na internete, brasileiros se perguntando o porque da péssima imagem do Brasil no exterior. Segue a minha opinião pessoal, baseada na observação durante os últimos 20 anos.

Moro na Suíça há 20 anos, o que é mais da metade da minha vida. Desde o primeiro dia em que cheguei aqui, me deparei com as infinitas diferenças socioculturais hoje para mim mais claras que outrora. Há diversos fatores que influenciam a visão do Brasil aqui na Europa central. Um deles é sem dúvida os longos anos em que o Brasil tinha apenas a cidade do Rio de Janeiro como cartão postal no exterior, e fazia questão de usar a bunda como chamariz turístico, como se o imenso território nacional se resumisse apenas às curvas das belas mulheres brasileiras.

Sabemos hoje os efeitos maléficos que isso trouxe à nossa imagem, e o quanto será difícil de desvencilhar desse estereotipo. Os motivos da nossa péssima reputação são fáceis de entender para os brasileiros que moram aqui no continente europeu. A verdade é que a grande maioria aqui no velho continente ignora o que o Brasil tem de fato a oferecer. Mas será culpa deles? Ou o próprio brasileiro ajuda a manter essa imagem deturpada do Brasil?

Para muitos estrangeiros e brasileiros também, o Brasil ainda se resume ao Rio de Janeiro, ao carnaval, ao samba e à bunda. Essa última tendo se tornado objeto de culto na sociedade brasileira. Mas basta sair um pouco desse eixo do mal, (Rio-Samba-Bunda-Carnaval-Futebol), para entender a complexidade da nossa cultura, que se formou no decorrer dos 500 anos de colonização afro-européia. No Brasil temos uma grande convergência de ritmos, sabores, crenças e cores que vão muito além do que é vendido como a imagem do Brasil.

O alemão, o suíço, o italiano e o espanhol vão ao Brasil com o claro intuito de conseguir sexo barato com as belas mulatas que vêem nos programas de TV ou nos eventos relativos ao Brasil aqui na Europa. Ao verem as mulatas rebolando suas bundas desnudas a um ritmo alucinante, imaginam elas fazendo o mesmo movimento em suas camas o que para muitos é uma imagem para lá de excitante, talvez até mesmo a materialização de um sonho erótico.

Não que eu esteja condenando os homens europeus por se enamorarem por nossas mulatas. O que eu condeno é a comercialização irresponsável desse produto, que veio a causar o constrangimento de ser hoje o país da mulata e do jogador de futebol. Nossos principais produtos de exportação.

O europeu pouco culto que vai ao Brasil para praticar turismo sexual é o grande difusor dessa imagem deturpada da nossa nação, assim como um mosquito que propaga uma doença contagiosa, ele espalha essa experiência repugnante e atrai outros turistas do sexo nos próximos anos. Mas o que fazer diante dessa verdadeira epidemia? Cada um de nós que pense em possíveis soluções, não apenas por parte das autoridades, mas também mudanças dentro de cada um de nós.

O turista do prazer se nega a conhecer o Brasil e se limita ao tour do sexo, que os espera já nos aeroportos e os levam direto ao tanto esperado derrote tropical. Eu francamente esperava um pouco mais de preparo mental e consciência social por parte dos europeus tão educados, brancos e primeiromundistas. Entretanto os próprios brasileiros também demoraram muito a se dar conta desse mal, e hoje em dia as medidas tomadas pelos governos de ambos os lados vão surtindo efeito aos poucos, enquanto a indústria do sexo ainda atua em larga escala.

É por esse e outros motivos que recentemente aumentou muito no número de brasileiros barrados nos aeroportos europeus. Um canal de TV mostrou semana passada um programa onde brasileiros estavam indignados com o tratamento recebido, mas em momento algum, os vi fazer uma reflexão que eu considero primordial. "O que será que os brasileiros fizeram na Europa para que nossa imagem decaísse tanto ao ponto de sermos barrados?" A reportagem foi ao meu ver tendenciosa e colocou nossos conterrâneos como coitadinhos, o que não é sempre o caso.

Há algum tempo, quando eu ainda cursava Direito na Universidade de St.Gallen (norte da Suíça), tive que estudar os casos das brasileiras que se divorciavam dos suíços. Basta uma rápida reflexão sobre o assunto para se concluir que de fato essas uniões fortuitas são mesmo destinadas ao falimento, já que tem seu fundamento não no amor, mas sim na necessidade financeira da brasileira e no interesse do europeu que procura uma dona de casa e não uma esposa com quem possa de fato crescer como pessoa e formar uma nova família.

Na esmagadora maioria dos casos, a união de suíços e brasileiras traz à tona divergências culturais e um abismo social entre ambos. Essas moças que no Brasil não terminaram em muitos casos o primeiro grau, se vêem diante de uma sociedade complexa, onde as regras não são a exceção. Se deparam com um clima hostil tanto no ponto de vista climático quanto social e uma língua difícil de se aprender. Vale lembrar que muitas delas não dominam nem mesmo o português. A relação que começou com uma aventura em alguma cidade do Nordeste brasileiro, termina com uma grande frustração por parte de ambos em uma fria e cinzenta tarde de inverno europeu.

Por fim, essas moças que eram de baixa renda no Brasil, trazem para a Suíça os seus costumes, como falar alto, desrespeitar regras, jogar lixo na rua e outras coisas que no Brasil chamamos de "baixaria". Justo esse modo de se comportar é o que mais se vê entre os brasileiros aqui na Europa e que ajuda também a manter essa imagem negativa do país.

Eu já freqüentei por algum tempo alguns dos tantos locais "latinos" aqui em Zürich e no resto da Suíça e posso dizer sem medo que presenciei incrédulo espetáculos jamais vistos na minha terra natal. Brigas de mulheres alcoolizadas, homens, garrafas e copos voando. Mulheres quase nuas rebolando (muitas delas acima do peso), para o deleite dos europeus que esperam apenas isso da mulher brasileira. Em suma, um quadro muito triste que denigre a imagem de um país imenso, que decerto tem muitos problemas, mas não se resume apenas ao sexo e à vulgaridade.

Um excelente exemplo é o renomado festival de Montreux, onde já estive várias vezes. Lá, encontra-se gente do mundo inteiro. Mas mulheres alcoolizadas falando alto pelas ruas, vestindo micro-shortinhos com a bandeira do Brasil só as nossas conterrâneas. Agora caro leitor, pergunte-se que idéia os europeus farão do Brasil ao ver esse tipo de comportamento com tanta freqüência aqui na Europa?

Deixo claro que a culpa não é apenas das moças brasileiras. Pois ninguém tem culpa de nascer em um contexto social pouco favorável ao desenvolvimento humano e cultural. Os europeus que vão garimpar garotas nos países do terceiro mundo e usam o fator pobreza, é que são os vetores dessa epidemia difícil de se curar. As garotas brasileiras só estão aqui, porque há demanda. Se os europeus fossem um pouco mais seletivos com quem envolvem quando saem de férias, a situação seria outra, ou talvez não.

Ullisses Salles

NOTA: Esse texto foi escrito no dia 26.07.2011. É uma reedição atualizada do texto originalmente publicado no Recanto das Letras em 28/12/2005. Ambos são de minha autoria.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
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