Multifocando

23 de Novembro de 2013 sergio geia Crônicas 617

O César falou que via a estrada se mexendo. Pro Gustavo, o mais irritante era colocar os pés no chão. Cadê o chão? Sem “chãonce”. “O pé vai, vai, vai” ele disse, “e nada”. Na visão do Gustavo, o chão chegava antes da hora. O Julio conseguiu ver a máquina copiadora respirando. Os Movimentos de inspiração e expiração. Nítidos. A Berenice disse que sentia náuseas enquanto caminhava.

Eram essas as minhas referências ao chegar à ótica. A atendente veio e, depois de me tranquilizar, despejando um monte de informações técnicas, aconselhou-me a comprar a TAL lente. A boa. “Você vai se acostumar rapidinho. Com esta lente aqui.” A TAL.

Sempre usei óculos com lentes simples, ou monofocais. Era a primeira vez que me deparava com aquela situação: comprar uma armação que sustentasse lentes multifocais. O que me gerou um grande problema: as minhas preferidas, as armações pequenas, não eram adequadas para a multifocalização da vida. Em tais lentes, distribuem-se três campos de visão: o longe, o intermediário e o perto. A armação então tinha de ser um pouco maior. Depois, foi escolher a marca da lente: optar por uma marca desconhecida, mas também boa nas palavras da atendente -- um boa meio com cara de mais ou menos -- e mais barata, ou optar por uma mais cara, ótima -- um ótima com acordes de violinos -- e com adaptação e conforto em tempo recorde vindo como plus no pacote?

Gostaria honestamente de cozinhar esse tal de multifocal. Mas já estava ficando ridículo, eu confesso. Minhas lentes eram para longe. E vivi muito bem com elas, mesmo pra perto. Só que de uma hora pra outra, deu pra embaçar as letrinhas do computador, dos livros, da bula de remédio, dos ingredientes dos produtos, e, para lê-las, eu tinha que tirar os óculos. Nada mais bisonha a cena: põe óculos, tira óculos, põe óculos, tira. Ave! Isso ofusca até a sua própria identidade. Imagina: uma hora de óculos, outra, sem. Porra, o cara não se decide? Quem é esse Sergio, afinal? Um homem de mil máscaras? Com certeza, querido. Eu, você, e milhões de terráqueos espalhados pelo planeta, mas isso é muito filosófico para uma simples crônica que somente quer tratar de lentes multifocais.

A verdade é que cá estou, neste dia que está apenas começando, um solzinho já entrando pela janela, o pessoal chegando pro trabalho, e eu com esse negocinho na mão, maior do que eu gostaria, com lentes mais grossas do que eu imaginava, pensando se ponho ou se não ponho.
Confesso que estou me sentindo estranho. Não sei explicar. Parece que estou deixando pra trás uma época, e começando outra. Uma mudança de época. É isso.

Mais que um mundo em três dimensões, parece que a vida ganha cores novas. Tudo mais limpo, mais nítido, mais claro. Não porque o branco-neve está tomando os pelos dos meus braços. Esses pelinhos aqui? Nada! Já fez isso no cabelo, na barba, no peito, nos pentelhos, eu nem ligo
mais. A sensação é muito diferente. Parece nascer uma espécie de autoria ainda um tanto quanto rudimentar nas dimensões da vida. Em que perto e intermediário são superados pelo distante. Ele traz um pacote de mercadorias que em tempos de consumismo escravo, demandam vista boa, ainda que, à base de lentes corretivas.

Sem filosofismos, vai: deixa ver se essa máquina copiadora respira mesmo.

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