Ela nunca deixava que pudessem ver seu rosto para além da porta, quando era Natal. Os temores de quando menina ainda permaneciam intactos na memória da afável Anita. Papai Noel existira apenas enquanto os sonhos adormeciam com ela; ao se levantar, abrir os olhos e perceber as frestas de luz do telhado mal posto, a realidade era abrupta, intragável, tal como as folhas secas do beco de ali perto, tão quebráveis quando a chuva não cai bem.

Anita era feliz ainda assim. Mensurava tal vida entre os dedos quando batia com as pontas dos mesmos na cabeceira da cama, ou no criado-mudo. Ali continha esperança.

(...)

Quando o telefone tocou, como de praxe, a menina pôs-se a levantar com os pés descalços, engrossar a voz e fingir não ser ela mesma. Qualquer desejo de felicidade poderia tirar dela as lágrimas que vinha guardando quando do dia 25 de dezembro do ano de 2005. Seja lá como for, Anita, que já não é mais tão menina assim, deixou crescerem fios de cabelo, unhas, dedos finos, pernas torneadas, mas preferiu abster-se de qualquer sentimento que não fosse fiel ao pormenor desde então pronunciado: não te amei jamais. No fundo, ela, os livros e os discos sabiam o que era esse tal amor banido.