O Catador de Papéis

15 de Dezembro de 2013 Valdir Gomes Crônicas 1574

Levantando-me de manhã diariamente lá pelas cinco ou seis horas, às vezes me recordo da infância.
Tão distante, porém tão viva. Algumas coisas me vêm à mente como que acontecidas ontem mesmo. Seguindo esse mesmo raciocínio, consigo me recordar de coisas ou fatos ocorridos na minha tenra idade, talvez entre dois e cinco anos. Por outro lado, como que o fato do meu brilhante HD encefálico após esse período tivera que arquivar emoções muito mais fortes e diversas, como o crescer, estudar, namorar, trabalhar, talvez tenha perdido alguns arquivos ou os gravado superficialmente.
O fato é que facilmente consigo trazer ao meu presente momento situações acontecidas no início da minha odisséia vital. Já situações recentes ou ocorridas há alguns dias, anos ou uma década atrás mesmo recebendo o reforço de imagens e fotografias, às vezes, me transcorrem despercebidamente.
Saliento de que não trata da minha avançada idade ou mesmo que esteja acometido de um mal inevitável. Isto que me ocorre, também deve ocorrer com o leitor. É normal nos lembrarmos de algo muito antigo e nos esquecermos de algo recente. A não ser que tal acontecido recente tenha lhe ferido ou marcado profundamente. Um acidente, a falta de um membro do corpo, ou da família. O primeiro beijo, o primeiro fora. O nascimento do primogênito.
Portanto, foi viajando no meu tão distante passado que me pus, numa dessas manhãs quando me levanto, a relembrar de um episódio acontecido na minha infância.
Morávamos numa pequena cidade que engatinhava após sua emancipação política. Liberdade esta que não viera casualmente. Para se conquistá-la, sangue teve que escorrer pelas ruas, florestas e rios. Todavia, naquele momento, o futuro promissor que se lhe descortinava era imenso.
Era eu o primeiro de casa a levantar-se, como o faço ainda até este presente momento. Cinco anos seria a minha idade, mais ou menos. Colava o rosto na vidraça da sala e punha-me com a curiosidade à flor da pele a seguir com os meus olhos aquele monte de trabalhadores que logo cedo cruzava a rua principal. Constituíam essa gente: pedreiros, padeiros, farmacêuticos, carpinteiros, marceneiros. O médico estufado em seu carango azul, que soltava uma extensa fumaça branca, a doméstica, o dono do quiosque da esquina da praça. Porém, minha atenção se voltava totalmente quando um velhinho ? que acredito ter tido a minha idade, hoje ? um tanto calvo, rosto abatido, macilento, que passava em seu prélio, de ida e vinda, empurrando um carrinho com rodas de bicicletas abarrotado de papéis. Lembrando-me disso, começo a valorizar aquela atitude. Talvez tenha sido daquele senhor a iniciativa de se reciclar papéis, bem como de tantos outros materiais retornáveis de hoje.
Segundo apurei, ele catava papéis ou os comprava por um preço, sendo que os revendia por outro superior, o que lhe garantia certa margem de lucro e, consequentemente, sua sobrevivência.
E foi sempre assim. Tempo bom ou ruim, manhã quente ou fria, linda ou feia, lá estava eu, com a minha imatura curiosidade à transcender a pele. Considero hoje, aquela atitude, o nascimento da minha veia observadora do comportamento alheio.
E o velhinho nunca faltava. E eu mais interessado na vivência dele.
Eis então, que certo dia ele não passou na rua. De início fiquei desapontado. Depois nervoso. Talvez tivesse acordado um pouco tarde ou o velhinho catador de papel tivesse mudado sua rotina matinal.
Passaram-se vários outros dias e não mais o vi. Nem mais cedo e tampouco mais tarde.
Por intermédio do meu irmão mais velho, algum tempo depois, fui informado de que o velhinho enriquecera-se, encontrando, entre uns papéis que encontrara, um certo bilhete premiado de loteria.
O fato é que nunca mais o vi.

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