A Espera

15 de Dezembro de 2013 Valdir Gomes Crônicas 798

   Vinícius está num ponto de ônibus.



  É o quinto de uma fila com mais de trinta
usuários que aguarda ansiosamente a chegada do coletivo. Parece atrasado, pela
forma que observa o nervosismo nitidamente estampado no rosto de cada um dos
enfileirados. Pelo jeito ninguém ali tomou café; e ele está doido para chegar
logo ao escritório e tomar o seu.



  Homens e mulheres, novos e idosos. Também
alguns estudantes.



  O rapaz começa a imaginar a dificuldade de
usar o transporte coletivo na cidade. Ele [o transporte coletivo] é o melhor e
tem servido de modelo para várias cidades do mundo. Imagine se fosse o pior!



  O transporte nas suas condições! Já
Vinícius, sem condição de escolha. Ninguém sabe ali, mas este sujeito de terno
e gravata, atolado num pisante modelo italiano envernizado está estreiando em
fila de espera de ônibus.



  Desde que nascera, o pai sempre possuía
carro. Portanto, o usufruto era total. Depois cresceu e, quando passou na
faculdade, levou como presente pela conquista o seu primeiro automóvel. Não era
o modelo desejado, mas o que estava nas condições do pai naquele instante.
Imaginava que, quando formado, logo após montar o seu primeiro escritório,
certamente trocaria de carro. Tudo bem que já passara-se oito anos após a
formatura e cinco depois da constituição do primeiro escritório de advocacia,
em sociedade com um colega de curso. A demora maior foi a conquista do direito
de advogar e a aprovação junto a ordem. Três anos de luta. Mas valeu.



  Ah, o carro? Bem, computando desde o
instante da conquista até o dia de ontem, tem nada mais, nada menos, do que
quinze anos.



  Todo mundo está com o olhar fixo no
horizonte, porém nada do ônibus. Alguns conversam. Outros passam o tempo
ouvindo diskmann e outros ainda desafiando o aparelho celular n’alguns
joguinhos. Vinícius não. A cabeça voa longe. A morte da mãe, a falência do pai,
a separação da mulher. Ainda bem que não tivera filhos. Ah, como não? E o
Alfredo? Tudo bem, ele é somente um cão, mas é o cão Alfredo. E é como um
filho. Tudo bem que um filho adquirido de um anúncio nos classificados do
jornal; que chorou muito até se certificar de que sua nova família seria aquela
dali pra frente. Qualquer dia desses precisa visitar o velho amigo no
apartamento que ficou com a mulher. Grandes passeios deverão ser lembrados...
Quanta amizade! Ela naquele enorme apartamento. Ele, enterrado num cubículo de
periferia que o corretor de imóveis insistira ser uma bela quitinete. Tudo
aquilo é somente a área de serviço do seu apartamento, onde agora está Juliane
e seu Alfredo. Espera que somente os dois vivam lá. Não gostaria de fazer uma
visita surpresa e, de repente, ser surpreendido por alguém ocupando o seu lugar
no coração do animal. Na cama não importa, mas no coração do Alfredo, isso sim!
O cão deve continuar se lembrando do seu fiel proprietário, uma vez que corre
em trâmite judicial ação pedindo a guarda do referido.



  Nada do ônibus. Vinícius consulta o relógio
e descobre que já está a mais de vinte minutos de pé, estático. Que ironia! Se
estivesse com o carro, somente a metade daquele tempo gastaria para chegar ao
escritório. Os outros dez destrincharia em tomar café e em alguns contatos
importante. Troca a pasta executiva de mão. Sente que as axilas suam. Motivo a
mais para inibí-lo de levantar o braço dentro do ônibus. Bem, para isso,
precisa primeiramente torcer que o ônibus venha.



  Vinícius começa a imaginar como o mundo
estaria bem mais evoluído, se todo mundo tivesse um carro. Se se contabilizar o
tempo de espera e durante o trânsito, cada cidadão deve perder uma hora e meia
entre ida e vinda do trabalho. Isso multiplicado por um mês, um ano, uma
década, deve fazer grande diferença. Mas também se recorda que, todo mundo
possuindo um carro, com certeza o trânsito se tornaria ainda mais caótico.
Aliás, a pessoa deveria se sentir muito feliz, conseguindo pelo menos tirar o
veículo da garagem. Rapidamente apaga a palavra evolução de sua mente. Trânsito
parado significa pessoas paradas, comércio estagnado e stress às alturas. Este
último pensamento lhe caía como água gelada em seu estômago fumegante. Ele
estava fazendo sua parte, pegando um ônibus. Se todos fizessem como ele, com
certeza o trânsito melhoraria consideravelmente. Menos carro nas ruas significa
menos CO2, ar puro, menos mortes por atropelamento. Também, pudera,
se todos que possuem carros estivessem naquele instante fazendo exatamente o
que Vinícius faz, com certeza estariam lamentando o descuido de não ter podido
pagar um seguro veicular e ainda por cima tê-lo roubado.



  Estar na fila do ônibus é um ato
involuntário. Mesmo sendo um cidadão preocupado com o bem estar das pessoas e
contra as mazelas da sociedade, até mesmo aquele dia que o prefeito conclamara
a sociedade para deixar o carro na garagem e usar o ônibus pelo menos por um
único dia, para se perceber a redução de ruídos e de venenos no ar, ele não
cooperou. Talvez por força do hábito. Quando se lembrou já estava estacionando
o carro no pátio do prédio onde fica o escritório. Ficara super envergonhado.
Todo mundo ali havia aderido ao conclame, mas somente ele usara o estacionamento.
Agora, forçosamente cooperava com a sociedade. Estava sem o carro e à espera do
ônibus. Aliás, não somente um, mas dois, pois deve chegar ao terminal
rodoviário mais próximo e apanhar outro que o levará a duas quadras do
escritório. Terá que andar um pouco, mas tudo bem, não está chovendo... e andar
faz bem.



  Vinícius agora se impacienta. Trinta
minutos na fila do ônibus! E nada dele. A fila aumenta. Uns cinquenta usuários
já devem fazer parte dela. Espera aí! Num ônibus, o máximo que pode aboletar são
40 passageiros! Se ali já são cinqüenta deles, subentende-se que, pelo menos,
os dez últimos deverão ficar para embarcar no próximo. Ufa! Ainda bem que ele
está entre os primeiros. Entretanto não dá pra cantar vitória. Compreendendo-se
que o ônibus não chega ali vazio, uma vez que deve passar por outros dois
bairros antes, provavelmente quando estacionar, sua carga pode estar no limite.
Portanto, estar entre os cinco primeiros não é garantia de embarque.



  Vinícius continua suando. O sol já está a
pino. Nenhuma brisa. Que falta lhe faz o velho carro! Tinha que ser roubado
justamente ontem? Já fazia quase dez anos que o carro estivera sob sua
custódia; uma repintura, duas reformas geral no estofamento, três substituição
de pneus, vários balanceamentos e amortecedores. Muita despesa, claro, mas
também o carro lhe fora utilíssimo. Todo o curso da faculdade, o namoro, o
casamento com Liliane, a pós- graduação do curso. O carro com certeza exigira
pelo menos um seguro, para garantia do investimento. Mas essa de amanhã eu
faço, protela aqui, adia-se ali, os anos foram passando e, como se sabe, quanto
mais velho o carro, maior a taxa de seguro. Com essa Vinícius ficou a pé. Um
pequeno descuido. Um pastel frio e um refrigerante morno, numa lanchonete dum
distante bairro, foi tudo que precisara para ter o carro roubado. De mãos
atadas, a única solução foi mesmo procurar uma delegacia policial e fazer o
boletim de ocorrência. Recuperar o carro pode ser questão de tempo; um dia, uma
semana, um mês, um ano, uma eternidade. Também o fator sorte pode ajudar, como
lhe prevenira o policial na delegacia.



  Nesse instante alguns carros começam a
passar pela rua tão calma até então. Instintivamente Vinícius começa a
observá-los. De repente lhe vem à mente a palavra do policial sobre a sorte de
poder encontrar o seu carro andando pelas ruas da cidade. Não seria fácil, mas
era comum ocorrer. Esperançoso, Vinícius fixa um olho lá no horizonte, à espera
do surgimento do ônibus e outro nos carros.



  Depois de quase quarenta minutos de
expectativa, o ônibus aparece, para alegria geral. Ele vem lento. Talvez porque
a carga que o condutor transporta é humana, portanto valiosa; talvez porque
deva estar lotado e o excesso de velocidade pode comprometer sua estabilidade
ou talvez pelo péssimo estado da rua. De repente um carro ultrapassa o ônibus e
vem. Vinícius fixa seus olhos no veículo. Não pode ser! Caramba! Reconheceria
seu velho Voyage verde musgo a quilômetros! Era ele mesmo, seu carro roubado
que vinha logo à frente do ônibus. Pensou rapidamente qual atitude tomar:
sinalizar para o carro parar, apanhar o celular e avisar a polícia ou... não
teve dúvidas. Deixou a fila do ônibus e saltou na rua, arriscando-se, e
gesticulou para que o carro parasse. Ali não, mas uns trinta metros depois o
carro foi parado. Vinícius não teve dúvidas. Como ele não conhecia os ladrões e
tampouco eles ou ele o conheciam, se aproximou do carro já com uma idéia fixa
na cabeça: dialogar com o meliante e reaver, se possível, seu carro na
conversa. De repente até fará uma contra-oferta, oferecendo um valor maior do
que um receptador o faria, levando-se em conta que tal pagamento dever ser
consumado num prazo curto de uns trinta dias. Claro que o bandido aceitará um
cheque pré-datado seu, não é? A conta é antiga, aberta ainda quando cursava o
primeiro ano de faculdade.



  Imensa decepção tem Vinícius, quando aborda
o veículo. Bem que o carro é parecido com o seu, mas muito longe de sê-lo. Ao
olhar pela janela do carro, vê um senhor de avançada idade ao volante e
provavelmente sua esposa no carona. Muito longe de serem os ladrões.
Educadamente o homem até lhe pergunta, sobre o motivo de sinalizar para que
parasse. Com um nó na garganta, Vinícius apenas gesticula um sinal de desculpa
em agradecimento e retorna para o ponto de ônibus. Este já está parado e as
pessoas se acotovelam ao entrar pela apertada porta de acesso. Algumas cabeças
já começam a ser estufadas pelas janelas, indicando que o ônibus já tem sua
capacidade superada em muito.  Vinícius
tenta retornar à fila, mas como não a tem marcado, a solução e ir para o fim
dela. O ônibus fecha a porta e prende as nádegas de uma senhora. Alguém, com o
espírito de Deus, empurra a porta para que a coitada se liberte da dor e tem
êxito. O ônibus sai. Dificilmente parará nos próximos pontos. Sua carga está
além do suportável.



  Já são oito horas e meia da manhã.



  Vinícius é o trigésimo da fila no ponto de
ônibus. A prioridade agora não é chegar ao escritório na hora do café, mas, se
possível, um pouco antes do almoço, pra tempo de lavar as mãos e secar o suor
do rosto.

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