Religião não se discute?

01 de Agosto de 2011 Ullisses Salles Crônicas 3911

A única coisa que eu gosto nas festas religiosas é o tempo livre ao qual eu tenho direito. Sem dúvida esse tempo livre é essencial para quem trabalha longas jornadas todos os dias como eu. Imagine o leitor se tivéssemos feriados para os cerca de 5000 Santos da religião politeísta católica. Seria um dolce far niente a vida inteira, e aí sim, teríamos que de fato esperar graças divinas para poder pagar por nossas roupas, remédios, educação, impostos, moradia... mas como Deus provém apenas nas palavras escritas em livros fantasiosos, temos que dar um jeitinho aqui na terra para não morrer à míngua.

Sei que meu modo de abordar a religião pode ser visto como pouco respeitoso por parte de alguns leitores mais fanáticos, mas a verdade é que não estou aqui para agradar ninguém. Nem os religiosos, nem os privos de fé. Afinal de contas se tem uma coisa que o religioso não tem; é respeito e tolerância com a opinião outrem. Nos EUA se você fizer algum tipo de demonstração “anticristã” certamente será agredido fisicamente e se tiver sorte sairá com vida. PS: Não espere uma intervenção da polícia, afinal de contas; “In God we trust”.

Nos países muçulmanos já sabemos do extremismo sem limites com o qual dizem defender as causas divinas, eu me pergunto qual seria a opinião de Deus diante dessa matança desproposital. Os judeus se consideram de fato o povo escolhido até hoje; mais de dois mil anos depois. Mesmo com todo o desenvolvimento e conhecimento tecnológico, eles acreditam que por algum motivo o suposto Deus escolheu a eles, menosprezando assim todas as outras civilizações do planeta. Portanto caro leitor, não espere de mim temor diante das religiões, pois enquanto os religiosos não respeitarem a opinião dos não religiosos, terão apenas o meu desprezo.

Embora esse texto não seja dedicado apenas aos que se dizem religiosos, acredito que o mesmo possa ser de fato direcionado aos que acreditam em Deus, ou nos Deuses, ou nos Santos, nos Anjos, nos Espíritos, na alma, na reencarnação, na vida eterna, em Shiva, em Thor, em Buda, em Xangô, em Tupã, no rato sagrado, na vaca sagrada, no macaco sagrado... Enfim, esse texto é para aqueles que acreditam em algo típico da fantasia humana; o sobrenatural. Mas não admite que se trata apenas de pura fantasia e tenta dar algum tipo de importância científica à sua fé sem que tenha provas mesmo que mínimas para sustentá-la.

Não tenho a ilusão de converter nem mesmo um dos possíveis leitores desse texto. Mas não me furto o direito de fazer algumas perguntas e queria muito que os mesmos tentassem responder de maneira honesta, não a mim, mas a si mesmo.

Religião não se discute? Antes de começar com algumas perguntas que eu acho fundamentais quero desfazer um tabu que se impôs com muita violência e controle das instituições religiosas durante milênios. Talvez a maior de todas as mentiras; “Religião não se discute”. Seria até engraçado se não fosse um estupro mental, uma afronta à liberdade de expressão e pensamento do ser humano. Não debater religião é o mesmo que acreditar em Papai Noel a vida inteira, ou em fadas, gnomos, Saci e outros personagens mitológicos que vamos conhecendo no decorrer da vida.

Religião se debate sim caro leitor, do contrário estaríamos com a mesma mentalidade de 2000 anos atrás, para aqueles que seguem a Bíblia por exemplo. Estaríamos ainda condenando à morte as pessoas que cometem adultério. Como assim? Pois é, está na Bíblia...

Você tem religião? Como você entrou na sua religião? Foi de escolha própria ou foi uma imposição sociocultural exercida por sua família e o meio em que vive? Seja honesto. Você escolheu mesmo sua religião? Quanto você sabe sobre ela? Já leu seus livros? Conhece seus fundadores? Conhece as guerras que ela provocou e a matança que ela justificou em nome de Deus? Sabe qual é o tamanho da riqueza dos seus representantes? Aqueles mesmos que pregam o sacrifício e humildade como um dos seus bastiões?

Você batizou seu filho? Já parou para pensar no ato do batismo? Já viu uma celebração mais sem nexo? Levar uma criança que acabou de nascer para livrá-la de um pecado que ela desconhece e que não cometeu? Posso ir além e perguntar ao leitor. Qual é mesmo o pecado do qual o batismo nos liberta? Quais provas científicas documentadas temos desse pecado? Depois não se irrite o leitor quando eu disser que o batismo não passa de fantasia e medo da vingança de Deus.

Casamento tem que ser para sempre? Esse é outro aspecto que me deixa abismado com a estupidez de certas religiões que pregam que o casamento seja insolúvel. Não há nada mais grotesco e arcaico do que forçar uma pessoa (normalmente a mulher) a ficar com alguém que não ama, (quando esse mesmo alguém não a espanca) pro resto da vida. A indiferença pela liberdade do ser humano por parte de certas religiões e religiosos ultrapassa qualquer limite de bom senso e civilismo.

Deus criou o universo? Se ele criou o universo, quem criou Deus? Deus é eterno... sei, essa é a melhor maneira de não responder à uma pergunta simples e desconcertante. Se Deus é eterno, e ele criou o universo, onde ele se encontrava antes? Afinal de contas o universo é infinito, mas se é infinito onde estava Deus quando o criou? Ficou complicado? Vamos por partes. Deus é eterno. Ok, mas o Universo não é; tem cerca de 10 bilhões de anos. Daí vem a questão. Antes de Deus criar o Universo... Ele estava onde, entendeu? Não? Nem eu, mas os teólogos dizem saber de tudo.

Cristo nasceu de uma mulher virgem? Essa é mesmo difícil de engolir. Se Cristo nasceu de uma mulher, era ele humano? Mas se era humano, como poderia ser filho de Deus? Filho de Deus? Como assim, afinal de contas sua mãe era virgem... Está ficando complicado de novo não é mesmo? Então vamos fingir por um momento que uma mulher virgem tenha parido o filho do criador do universo sem jamais ter tido relações sexuais.

O tal filho de Deus, morreu em uma cruz, para deleite de muitos sádicos que amavam observar esse tipo de espetáculo; todos criaturas de Deus, como você e eu. Mas e aí? De que isso adiantou? Qual é a conseqüência tangível da morte de Cristo na cruz? Nos salvou de quê? Ou melhor, de quem? Vou além. Nos salvou de nada, pois de lá para cá o mundo continua a mesma coisa. Corrupção, sadismo, violência, abuso de poder, fome, guerras... Igualzinho como há 2000 anos.

Você é judeu? Não trabalha nem acende luz aos sábados não é? Que interessante. Porque é mesmo que você não pode fazer faísca aos sábados? O dia em que Deus descansou? Acredita mesmo que não produzir faísca aos sábados tenha de verdade alguma ligação com a criação do universo? Será que já parou ao menos um minuto para pensar nesse absurdo? Ou nem pensa? Obriga seus filhos a fazerem igualmente? Porque não dá a eles a chance de escolha? Acha que crianças têm religião? Acredita em crianças muçulmanas e católicas e judias? Crianças são apenas crianças. Quer uma prova? Crie elas sem forçá-las a serem religiosas. Verá que a esmagadora maioria crescerá priva de fé e livre de preconceitos.

Você acredita mesmo que o rato seja a reencarnação dos filhos de Shiva? Acha mesmo que comer comida junto com eles é sagrado? Acha mesmo que beijá-los e construir um templo todo de mármore para ratos em um lugar onde as pessoas vivem em condições precárias seja algo divino? E antes que o leitor católico pense; “nossa que coisa mais primitiva”, pense na riqueza das igrejas católicas, no tanto de ouro e no luxo do Vaticano enquanto seus seguidores vivem na miséria espalhados na América Católica.

Você leva mesmo a sério a sua religião? Sua religião aceita a existência de milagres? Saberia me dizer o que é um milagre? Seria um milagre uma espécie de mágica? Sua religião faz uso de preces? De que servem as preces? Normalmente as pessoas rezam para conseguir algo não é? Caro leitor, acha mesmo que Deus o ajudaria de algum modo por causa da sua reza? Acha que ele daria a vaga no vestibular ao seu filho em detrimento de todos os outros candidatos? E quando acontece um acidente? Acha mesmo que alguns sobrevivem graças às preces dos seus parentes e amigos? Haveria Deus salvo alguns ou deixado que os demais morressem?

Embora eu não seja religioso, não posso negar que a religião por vezes serve ao menos como diretriz para a vida de seus seguidores. Existem muitas pessoas que precisam ter determinados valores impostos por uma seita, do contrário viveriam vidas totalmente desregradas e sem futuro. No entanto acho que a leis civis cumprem muito bem esse papel. Colocando na balança acho que entre o bem que uma religião pode fazer e o mal que ela causa ou já causou, o mal prevalece.

Já notou que religiões servem apenas para privar o seu seguidor de algo? Tudo é proibido, tudo é pecado. Sexo antes do casamento, comer carne na sexta-feira, acender luz aos sábados, comer carne bovina, mostrar parte do corpo, divórcio, aborto, transplante de órgãos... Tudo é proibido. Religião só existe para dizer a quem você deve odiar e o que você não pode fazer. Mas há quem de fato acredite que através dela estamos venerando Deus o criador do universo.

Eu teria ainda muitas outras perguntas, mas acredito que essas já sejam o bastante para questionar a existência do seu Deus e a coerência da sua religião. De todo modo antes de terminar quero fazer mais uma pergunta. Segundo a sua religião, Deus é o criador do universo e de tudo que se encontra nele? Assim sendo Deus também é o criador do câncer, da Aids, da leucemia, do Hitler, dos traficantes de drogas e dos políticos. Se Deus é de fato o criador de tudo, ele é criador do bem e do mal. Se segundo sua visão ele não é o criador do mal, então há coisas que se criaram sozinhas e portanto Deus não é o criador de tudo, o que nos daria ao menos em tese uma segunda fonte criadora... Qual seria ela?

A criança naturalmente sem religião se questiona.
“Se meu pai paga pelo alimento, porque devo agradecer a Deus?”

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