Sete horas da manhã, solzinho saindo, algumas pessoas indo para a igreja, pouca movimentação nas ruas de Taubaté. Nenhum estardalhaço, nenhuma confusão no trânsito, nenhuma buzina. Uma beleza de domingo.

Mas o leitor mais atento pode se perguntar se numa cidade como Taubaté o domingo não é sempre assim; e sou obrigado a responder, balançando afirmativamente a cabeça, que sim. O senhor está certo, meu amigo. Um ato falho de minha parte, digamos. Domingo é o dia do silêncio, do recolhimento. O dia dedicado ao Senhor, para os crentes. Sinônimo de preguiça e ressaca para os laicos: dormir até o meio-dia, almoçar num restaurante, ver o futebol, tomar umas brejas. Somente os doidinhos como eu escolhem largar a cama tão cedo num domingo para fazer exercícios. Mas minha corrida na Santa é um ritual, e dele não abro mão.

Porém, hoje, esse ritual saudável que sempre termina com um banho quente, um suco natural de laranja, um livro nas mãos, foi maculado por um desejo intruso, que atende pelo nome de pastel. E não pode ser qualquer um: só aceito pastel de feira, que eu encontro no mercado.

Olha só ele aí, o mercado... É claro que o nosso mercadão daqui não tem o mesmo glamour do mercadão de lá, que até já serviu de locação para uma novela global, mas tem o seu charme. Confesso que sempre tive vontade de vê-lo, com suas maravilhosas frutas coloridas, com seu mosaico de produtos, com sua gente simpática, brilhando em uma de minhas crônicas. Mas, neste ponto, sou bastante chato. Escrevo o que observo, o que sinto, o que me toca, o que esses olhos curiosos testemunham. E, sinceramente, meus arquivos quadragenários não acusam nada de relevante que possa servir de mote para uma boa crônica.

O diabinho de lá me cutuca dizendo que a beleza de uma crônica não está nos grandes acontecimentos que, na maioria das vezes, são frívolos e desinteressantes, mas sim na miudeza sem valor, com o que hei de concordar. Porém, como disse, em matéria de princípio, fico com o anjinho de cá: sou chato, e se não encontro nada para escrever, não escrevo; mas, se quero escrever mesmo assim, tenho nas mãos não uma crônica, mas um impasse.

Enquanto este cronista metido a besta pensa no que fazer, se fica com o anjinho ou com o diabo (confesso que sou mais chegado a diabices), detalho para você, meu querido, que gasta seu tempo precioso lendo essas crônicas simples como pé de milho, a aventura que vivi por um pastel. Não sei se em sua cidade é assim, mas aqui em Taubaté, pastel igual ao do mercado eu não encontro não. A massa é clarinha e leve, a carne tem um tempero que lembra muito o tempero de minha avó. É que há sabores e sons que nos fazem sentir muito bem. Eu, por exemplo, quando mais jovem, gostava de dormir ouvindo uma fita do Roberto Carlos. Hoje, quando eu a escuto, me sinto muito bem, aciona alguma coisa lá dentro que me relaxa.

Mas o pastel do mercado, como dizia, além de ser muito bom, me evoca os domingos na casa da minha vó Lourença, lá na rua Professor Moreira. Antigamente, almoço de domingo era na casa da avó. E sobre isso e a aventura pitoresca que vivi pra comer um simples pastel, eu continuo semana que vem. Perdão, meu querido.