Ferrovia X Rodovia: a necessidade de sonhar

18 de Janeiro de 2014 duilio duka Crônicas 1365

Uma locomotiva puxando a composição de vagões, que mormente chamamos de “trem”, ou ainda a velha “Maria Fumaça”, são hoje, apenas recordação que faz arder de tristeza a cabeça dos que nasceram até a segunda metade da segunda metade do século XX.

Tristeza porque, falar hoje de estrada de ferro não dá ibope no meio da moçada. Estrada de ferro é um assunto do passado, não vira mais, já era. É um assunto muito “trash”. O que essa galera curti hoje são os carros supermáquinas e a adrenalina resultante de sua potência e velocidade!

Estrada Não, Rodovia. E parece que quanto mais congestionada, mais se congestiona pelo excesso de curtição. Ou ainda, as aventuras deliciosas dos desafios de um “Enduro” ou da velocidade de uma “Fórmula 1” e suas similares nas mais variadas formas e das mais variadas marcas das máquinas que parecem voar. Tudo para o troféu de um ou de uma pequena equipe. Nada de povo, população, sociedade.

Da ferrovia, dos trens, restam apenas fotos antigas ou novas e vídeos do que restou, e que alguém publica periodicamente no YouTube, e essa galera curti e compartilha no Facebook pela beleza da paisagem capitada de uma natureza morta ou viva; porém alheia de saber do processo histórico da sua destruição.

O mundo se modernizou. O Brasil se modernizou (ou não?). A vida se modernizou e a morte se apropriou vilipendiosamente dessa modernização.

Por que as ferrovias estão quase sempre ao lado das rodovias? Será que é para não serem esquecidas totalmente?

Não conheço todas as estradas de ferro brasileiras e nem suas respectivas extensões, mas posso imaginar seus trajetos e importância. Da Paulista à NOB. Da Noroeste à EFS. Da Sorocabana à CMEF. Da Companhia Mogiana à RFFSA, cruzando o estado de São Paulo e as famosas Madeira Mamoré, Central do Brasil, Leopoldina, Imperatriz, dentre tantas outras que cada qual ao seu tempo, representaram e representam uma vital importância para o transporte da população e dos produtos da nossa economia, expandindo e integrando a urbanização territorial e alavancando o crescimento e desenvolvimento do Brasil.

O barulho da máquina e dos vagões sobre os trilhos láááá lonnnnge. O apito, o busto e a cabeça das pessoas aparecendo nas janelas. As curvas, o movimento, o balanço prá lá e prá cá. Enfim, tenho saudade do tempo de criança e adolescência.

Pronto! É isso! Pensar estrada de ferro é ter saudade. Ter saudade é amar! Amar é conviver, é recordar, é criar, é preservar, é viver a História... a História de um povo, a História de um lugar, a História das coisas.

Mas como amar um povo – diferentes pessoas, com suas diferentes histórias – sem a presença da lendária história da ferrovia que ligava esse povo neste lugar chamado Brasil? Como preservar a memória e a cultura se foi destruída aquela que fez nascer essa cultura?

Felizmente, para nós, nascentes até a segunda metade da segunda metade do século XX, resta-nos a memória.

E a Estrada de Ferro está na memória, carregada de histórias, porque os trens transportavam o sonho da criançada e a saudade daqueles que tinham sensibilidade na mente e no coração, além do baixo custo do transporte dos produtos industriáveis e dos alimentos para diminuir a fome desse povo.

A ferrovia pode fazer renascer essa cultura, se os homens e as mulheres que estão no poder quiserem. As crianças, os adolescentes e os jovens de hoje têm direito ao sonho, mais que isso, precisam aprender a sonhar.  Os adultos, os velhos sonham, mais que isso, podem construir os sonhos. Sonhos de alegria. Sonhos de felicidade. Sonhos de luta e irmandade.

Sonhos possíveis e imagináveis como numa estação ferroviária, com seus trens, cujas chegadas e partidas, registram os abraços de alegria de quem chega e os abraços tristes da partida, porém esperançosos, de quem voltará um dia. São coisas que, pelo caráter individualista do egoísmo e pela pressa da velocidade, a rodovia jamais poderá nos proporcionar.



DUILIO DUKA DE SOUZA ZANNI 

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