Tédio urbano

02 de Fevereiro de 2014 David Bucks Crônicas 684

 Entediado, sento no banco da praça e fico vendo o sereno descer e deixar aos poucos meus poucos fios de cabelo úmidos. Não, na verdade não é bem tédio. Talvez uma pequena e suave tristeza que bate lentamente no peito.  Estou sozinho, acompanhado de uma garrafa de vinho tinto seco e alguns cigarros que roubei da bolsa de uma mulher em uma dessas reuniões de comemoração de tantos anos de formado. Canto algumas músicas para quebrar o clima de silêncio angustiante. Essa é a minha noite, a primeira noite do resto da minha vida.  Penso nos dias que antecederam esta noite úmida. E um estardalhaço de memórias urbanas invadem minha mente. Como eu gostava de pensar que eram memórias poéticas, mas não. Simples memórias urbanas, cinzas e densas, que ficam horas paradas em um engarrafamento mas que ao encontrarem transito livre percorrem a estrada da lembrança em uma velocidade que não posso mensurar.  E nesta noite todas estas memórias encontraram este maldito e abençoado transito livre. Acendo um cigarro, mesmo sabendo que não sou um fumante. Apenas quero me sentir sujo por quebrar alguns dos meus principios. Do mesmo modo, bebo o vinho no gargalo e deixo um filete escorrer pelo canto da minha boca como se esperasse que alguma mulher estivesse ali para limpar com um beijo doce.  Beijos doces. Como isso seria poético se não fosse o meu modo de ser com as mulheres. Lembro agora de uma certa vez que escrevi uma carta vergonhosa as mulheres, revelando o modo como eu as uso para poder escrever. Seria poético, mas é urbano e por ser urbano não vou revelar minhas memórias. Deixarei para outros contos, crônicas e poemas.  Hoje só quero deixar o sereno tocar o meu corpo, fumar um cigarro e me embriagar. Sem falsos moralismos, sem falas que encantam. Hoje serei eu comigo mesmo. E viva essa minha vida urbana, fadada ao esquecimento e às dores de amores que finjo esquecer.

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