Há noites que pedem de joelhos um passeio. Por mais que você esteja um bagaço; por mais que o dia tenha sido daqueles. Há uma fresquidão gostosa no ar e, digamos, uma atmosfera fitness, típica das noites estivais. Você olha pela janelinha e sente o calor, o brado noturno mandando largar tudo, o viciante sofá, a não menos viciante gelada, esse encapsulamento idiota que lhe faz um idiota na frente da telinha. Mas falo de um passeio de verdade, com as próprias pernas, sem eira nem beira. Uma flanada à larga. Ah, é bom, muito bom!

Dona Sandra, 52 anos, talvez tenha sido fisgada por essa ideia, e livre, leve e solta, acompanhada apenas de seu cãozinho, foi se entregar ao desfrute de uma flanada a dois pela Marquês de São Vicente, na Gávea. Não imaginava que, nas proximidades do Instituto Moreira Salles, tivesse seu mimoso passeio interrompido por um incidente no mínimo invulgar para uma ruela bucólica da zona urbana carioca: foi atingida na cabeça por um serelepe porco-espinho, que caiu glorioso de cima de um insuspeito poste. Sim, meu amigo, minha querida. O que você está lendo é o que você está lendo. Um porco-espinho. Um poste. Um inofensivo poste.

Quando me deparei com a notícia nos jornais, confesso que num primeiro momento, assim como você, não acreditei. Mas depois, já adaptado a mais uma das bizarrices tupiniquins, me pus a refletir e uma camada densa de preocupação tomou conta deste cronista chegado a uma leseira: os famigerados desdobramentos.

Dona Sandra passa bem. Embora tenha sofrido centenas de arranhões no couro cabeludo; embora tenha se submetido a longas sessões de extração de espinhos à pinça, passa bem, e isso é o que mais importa. Porém, outros desdobramentos se avizinham.

Primeiro, o caráter universal do simplório fato. Com certeza, não se trata apenas de um eventozinho pós-moderno carioca. É canarinho, meu amigo. É canarinho. Se aconteceu lá, por que você acha que estamos livres de um porquinho espinhento aparecer por aqui? Ou você acha que porco-espinho suburbano só existe na cidade maravilhosa?

Segundo, os efeitos psicológicos. Então, se já não bastassem as preocupações diárias, tais como desviar de cocô de cachorro; evitar andar debaixo de frondosas árvores pra não ser premiado; não
passar debaixo de portãozinho chiquetérrimo; rezar pra que nenhum projétil desgovernado resolva se governar justamente pra dentro de você, agora temos que andar também de olho em poste, que sempre esteve lá, inofensivo, mas que agora, da noite pro dia, tornou-se esconderijo de roedores perigosos. Vocês não têm ideia de como tudo isso faz um mal para a psique humana.

Agora, há um desdobramento que me preocupa mais: as nossas autoridades. Ou você tem alguma dúvida de que brilhantes ideias não vão sair das brilhantes cabeças de nossos políticos? Já estou até vendo. Não estranhe se num futuro bem próximo não tenhamos de sair de casa com um belo de um capacete verde-oliva no cocuruto e uma bolsinha de primeiros socorros a tiracolo. Duvida? Tem empresário já trabalhando com a ideia. Aposto.