Melancolia e uma inútil esperança

13 de Fevereiro de 2014 Elias Lima Crônicas 1759

Sinto os meus ideais se quebrando em minha cabeça
Cacos de sangue de gente pobre, cacos de sonhos de crianças desfeitos, cacos de esperança indo embora, cacos do meu sossego.

Sinto os sonhos se partindo em mil pedaços
Caindo sobre mim, lentamente, pedaço por pedaço cai em minha consciência e me parte a alma
Ainda resta algo em mim?

Pedaço por pedaço vou recomeçando. Dolorosamente vou me colando e ocultando as cicatrizes que sobrevivem respirando através dessa tentativa de me reconstruir.
Então eu percebo: a minha alma jamais encontrará a cura e o sossego. E ninguém jamais poderá me remontar. Estou partido. Colado, mas por dentro, partido.
“O meu partido é o coração partido” dizia o poeta, cantor e compositor Cazuza.

Um choro de uma criança com fome. Suja.
Um velho abandonado na esquina. Sem valor.
Um crime hediondo ostentado pelos opressores que detém a força do pensamento coletivo do povo pobre e oprimido pelo ódio à eles mesmos.
Uma mídia partidária, longe de dar jus ao “jornalismo” brasileiro.
A verdade sobre o Brasil, ninguém nunca estudará na escola e jamais vai ver no telejornalismo brasileiro.

Enquanto isso, todo o público assiste de pé aos escândalos. A Tv brasileira sobrevive de espetáculos, de horrores, de sentimentalismo debiloide e de escândalos, o prato predileto das emissoras.
A tv é uma espécie de circo. Se tem de tudo: do cult à cultura de massa. A violência antes temida agora é espetáculo diário. Uma espécie de filme de terror real, onde todos correm perigo e se sentem vivos. Indignados, anestesiados após desligar a tv e dormindo com seus calmantes.

Ninguém questiona a origem de tanta barbárie. Estranho sou e perdido estou neste apocalipse. A maldade é regra social, a indiferença é banal, o ódio, a vingança, o rancor ganham forças debaixo da superficialidade do caos.

O trabalhador é um escravo moderno. Tem carteira assinada, mas não tem seus direitos garantidos. A mulher ainda é vista como objeto. O homoafetivo ainda é visto como “aberração” em pleno século 21. Crianças são exploradas sexualmente e a maioria da juventude brasileira é exterminada nas periferias. É a justiça com as próprias mãos. É a velha brincadeira de “polícia e ladrão”.

Um jovem sem limites estupra uma adolescente e não vai preso pois o pai que é dono de uma rede de tevê pagou sua fiança. A menina chora em seu quarto escuro, sem saber onde encontrar uma esperança. O jovem sem limite ostenta sua liberdade de poder nas redes sociais. Tudo é permitido aos que têm poder. A lei funciona em maioria, para os pobres que não tem muitas vezes o que comer, e é preso por furtar um saco de arroz pois já não sabia mais o que fazer.

Um jovem adolescente sonhava em ser professor de dança mas morre torturadamente por um grupo religioso que realiza as leis divinas, excluindo com crime de ódio aqueles que não se adaptaram às suas crenças. Estamos no declínio do império romano? Ou hoje é sexta-feira do dia 14 de fevereiro de 2014?

De casa, o povo assiste e cheio de valores cristãos se defendem: quem mandou dar pinta?

Ainda padecemos “mais do mesmo”. “Os assassinos estão livres, nós não estamos” cantava Renato Russo na banda Legião Urbana na música “Teatro dos Vampiros”.
Um Estado que institucionaliza a violência e o extermínio da maioria da população.
Um país que vende à preço de banana o nosso valor, a nossa cultura e a mão-de-obra que fornecemos às multinacionais com a nossa matéria-prima.

É tempo de respirar novos pensamentos. Pensamentos nus e virgens. É preciso “reiniciar” nosso modo de pensar sobre o diferente, sobre aquilo ou quem não me agrada e me assusta e me deixa inseguro em minha ignorância sagrada. É preciso se libertar dessa bagagem “excludente” que é a nossa história, a nossa cultura, os nossos costumes. É preciso coragem, audácia e esperança. O Brasil está no escuro, graças às vinganças que alimentamos, aos ressentimentos que guardamos, à vitimização que nos torna preguiçosos e acomodados, à nossa covardia que nos torna cúmplices dessa “zona” toda.

“Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro”

(O tempo não para, Cazuza, 1988.)

Precisamos respeitar a individualidade do outro. Ninguém é igual à ninguém e ninguém tem que ser. O que é verdade para você pode ser mentira para mim e não precisamos nos desentender. A diferença nos mantém vivos. Vivemos porque somos diferentes. E não porque somos iguais. Por que temos de ser iguais se a natureza nos faz diferentes?
Uma flor é diferente da outra. Uma árvore é diferente da outra e mesmo assim a natureza é perfeita, porque ela tem suas diferenças e convivem para que nós possamos conviver. Há seres diferentes, vivendo de formas diferentes e todos esses seres, todas essas vidas se inter-relacionam para que possamos ter terra para plantar e colher, ar para respirarmos, sombra para descansarmos, fogo para aquecer e água para saciar a sede e principalmente: nascermos. Ir contra o diferente é ir contra a si mesmo, pois a natureza é diversa e perfeita. Só descobrimos a perfeição através das diferenças. E que a nossa capacidade de amar seja maior do que a de odiar. Pois o que plantamos hoje, os nossos filhos colherão no futuro. Vamos fazer diferente: vamos abraçar as diferenças e viver humanamente. Só assim, alcançaremos a dignidade tão desejada e poderemos ser livres para viver como quisermos sem ter que dizer o “porquê”. Pois a vida muda o tempo inteiro, e quem pára no caminho destrói o futuro porque ficou preso no começo.

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