Coffee break

22 de Fevereiro de 2014 sergio geia Crônicas 704

O intervalo para o coffee break é um interlúdio apreciável em qualquer workshop que se preze. Por mais interessante que seja o assunto, por mais notável que seja a figura com o microfone na mão, o sucesso do evento passa induvidosamente pela qualidade do lanchinho. Lembro-me de que certa vez cheguei atrasado a um workshop institucional. Peguei meu glorioso crachá, fui sentar num dos poucos lugares ainda vazios (para o meu azar, ou minha sorte, depende do ponto de vista, na primeira fileira da frente). Estavam ainda na fase de apresentações. Ao meu lado tinha um sujeito grande, de barba espessa, uma figura que me parecia bastante conhecida. Tentei
puxar de meus registros, mas nada. Após alguns minutos de blá-blá-blá ele foi chamado ao palco para a sua palestra: era Mario Sérgio Cortella. Pois mesmo num workshop que tenha como um de seus conferencistas o notável filósofo e escritor Mario Sérgio Cortella, o coffee break não pode ser relegado a segundo plano. Não. Não pode.

Recentemente participei de um seminário. Não vem à crônica, quer dizer, não vem ao caso, de que se tratava. Embora tenha sido interessante, não vem ao caso. O importante aqui, no momento, é o coffee break. Dou a mão à palmatória, eu sei, não precisa enfiar o dedão na cara que eu sei que você vai fazer isso, pois outro dia até eu me rendi ao inglesismo institucionalizado ao batizar uma crônica de Widow’s Theory, mas decididamente, é um pé no saco se deparar a todo o momento, nesses encontros, com essas palavrinhas chatinhas ditas por todo mundo, com sotaques e trejeitos, tais como coffee break, workshop, checklist, gaps etc. Talvez tais expressões sirvam para tornar o assunto mais chique.

Mas voltando ao cafezinho (que é o que interessa), ou ao coffee break (como queiram), digo e repito que o sucesso de qualquer seminário passa invariavelmente pela qualidade do café servido nos intervalos. E qualquer café (e café aqui, meu querido, no sentido mais amplo que você possa imaginar) digno e bem servido passa inapelavelmente pela qualidade do suco de laranja. E suco de laranja de caixinha, meu amigo, sinceramente? Não dá.

Num mundo artificial em que o silicone artificializa o peito, a tintura artificializa o cabelo, o botox artificializa a cara, a indústria fast food artificializa o lanche, vem um sujeito aqui se preocupar se o suco de laranja servido no lanchinho é natural ou de caixinha?! É. Exatamente isso. Suco de laranja. Natural. Não o culpo pelo pensamento, camarada, talvez já estejamos nos acostumando com o artificialismo generalizado; é a normalização do artificial. Talvez até estejamos gostando. Tudo é artificial neste mundo, oras! Mas toda vez que me deparo com um suco de caixinha substituindo o bom e velho suco de laranja natural, ah, não dá!  Eles até tentam transformá-lo em suco com jeito de natural, até os gomos eles conseguem fabricar e enfiar na caixinha! Mas é só dar a primeira golada para perceber que o natural tá fazendo falta.

E vai continuar fazendo. Quero descobrir o hotel que vai trocar a tranquila tarefa de esvaziar umas caixinhas na jarra pelo trabalho manual e repetitivo de espremer dúzias e dúzias de laranjas. Ainda bem que os canapés continuam os mesmos. Croquete continua sendo croquete. Quibe continua sendo quibe. Empada continua sendo empada. Coxinha continua sendo coxinha. Não sei até quando. Pois não é que dia desses me serviram numa festa uma coxinha de azeitona!?

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