Abri os olhos.
Acordei.
Antes mesmo de pensar em me levantar da cama
Sinto um peso no coração
Como se ele fosse uma caçamba de todas as minhas dores.

Tento me arrastar até chegar a janela
(Quem sabe há vida lá fora?)
E para o meu desespero
Não. Não há nada!
Nada além do mesmo.

Como sobreviver neste infinito pesadelo
Que é estar morto e fingir que está vivendo?

Me volto novamente para a janela
(Talvez eu veja alguma criança sorrindo)
E para o meu maior desespero
Vejo carros indo para lá e para cá
Sem saber para onde realmente vão
Cegos por uma cruel ambição
Vejo ônibus lotados, como pastos cheios de bois
Cheio de gente se esmagando no mesmo rebanho
Para chegar em casa e levar o básico pra mesa.

Ligo a tv.
Políticos sem um mínimo de compaixão pelo outro
Fazem grandes promessas.
Eu quero acreditar que ninguém irá acreditar.
Mas não quero mentir para mim mesmo.

Olho para a mesa em que tomo o café
E não sinto fome.
Sinto nojo.
Nojo de mim e de todos.
Até quando viveremos assim?
Correndo o tempo todo
Sem tempo para amar
Com medo de amar
Sem tempo pra viver em família
Sem tempo para se ouvir e encontrar suas próprias respostas?

Tempo, tempo, tempo...
Nos falta tempo, não é isso?
O tempo é culpado!
Ele não nos permite que vejamos a beleza do pôr-do-sol
Nem a beleza da flor que está em cima da mesa há meses
O tempo nos castiga
Nos impõe
Nos oprime!
Maldito tempo...

No entanto ele nos controla
Ou a gente não se controla?
Ele nos oprime
Ou nós nos deixamos oprimir por demasiadas obrigações?
Querendo o tempo todo consumir
Ir naquele restaurante caro
Viajar para o exterior
À custa do abandono dos filhos às babás?

O tempo é meu amigo.
Me traz paz, amadurecimento e conhecimento.
Do meu tempo eu faço alegria, sabedoria e entendimento.
Me descontento em saber tantas coisas por vezes.
Mas para tudo na vida existe um preço.

Os ignorantes vivem suas desgraças sem enxergá-las
Os sábios vivem as suas mas buscam alguma solução, alguma saída
Desta condição que vivemos tão amargamente o nosso tempo.

Então do tempo eu sou parceiro.
Caminhamos juntos e sem desespero.
Um dia irei partir daqui e levarei comigo: amores, paixões, desilusões, sucessos, fracassos, medos e levarei o melhor presente: ter vivido o meu tempo conforme o “meu tempo” e não conforme o tempo que nos impõe.
Segui o meu tempo e vivi sem medo dele, pois acredito nele. Acredito em mim.
Principalmente em mim, pois sou dono dele.
E do Tempo não levarei nenhum ressentimento
Mas sim, contentamento e agradecimento.
Pois vivi o "meu tempo" e não o tempo que a mim foi determinado.

O tempo que nós temos só é válido se fizermos dele um tempo de amor, de esperança, de ética, de plantação de solidariedade e compaixão. Para que os que vierem depois de nós venham a colher nossas ações e repassando essas lições, um dia poderemos viver num mundo menos cruel e violento.
Quem sabe, num mundo mais justo e mais humano, porque já não seremos escravos do tempo e sim, senhores do nosso tempo e escritores de tudo que fizermos. E até pintores. Poderemos colorir o nosso dia, o mês, o ano, a vida com a cor que quisermos.

Para ser feliz em nosso tempo, nada mais precisamos do que aproveitar melhor o nosso tempo: amando, sendo amado, respeitando, sendo respeitado, enxergando o outro além de nós mesmos (além do nosso quadrado), cuidando do mundo como se fosse a nossa casa e semeando amor, respeito e esperança.
Então agradeço o Tempo pelo tempo que ele tem me dado.
Porque não sou mais escravizado.
Estou liberto deste “tempo que não é tempo” e sim morte coletiva, fazendo de todos suicidas em busca do nada, indo parar em seus próprios precipícios.
E no hospício que há na alma, ficarão presos lá por muito tempo.
Porque os pensamentos nos guiam e nos fazem agir e agindo contra nós mesmos não teremos outro efeito senão a perda da nossa própria identidade, a perda de nós mesmos.

Então do tempo eu faço vida
E assim vou vivendo.
Feliz com o meu tempo.
Feliz por ter tempo.