Vida

08 de Março de 2014 sergio geia Crônicas 560

Olhai os lírios do campo. Nem que seja por um segundo. Pense no tempo, sinta o vento. Uma
música ao longe? A música é vida, vida é música. Sua doce vida, baby, que pede um lugar ao sol. Olhai os lírios do campo, senão, noite.

Nem que seja um pouquinho. Um pouquinho só. Eu sei que não tens tempo. É correria bruta, absurda, colossal. Mas quem não acha tempo para um simples lírio não pode ser feliz. E vida sem
felicidade... Acorde, doce Clarissa! A vida passa como um raio cortando o céu, como um incidente, com a chuva de verão. E de repente, sol. E a vida? Noite.

Não se trata de simples aventuras provisórias, faça-me o favor, senhor Juliano! De jeito nenhum! A vida é muito mais que isso. Não pode haver lugar para o provisório, o limitante, o parcial, o mais ou menos. Vida mais ou menos? Nunca! O que pensas que sou? O bom filho eterno? Ora, nem queira saber. A ultrapassagem daquela linha tênue que nos separava sacudiu os fantasmas da infância. Um trapo. Mas feliz, ah, feliz! Feliz por se dar conta que isso é vida. Uma azeitona preta carnuda pronta pra ser devorada. Ah, doce vida! O fotógrafo? Pode registrar.

Nem Helena nem Iaiá. Nem ninguém. Ninguém pode ajudar. Não há definições, conceitos, mergulhos, viagens possíveis no vasto e limitado repertório humano. Nas profundezas do ser? Talvez. Talvez ali você encontre algo. Na cartomante muitos já tentaram. Mas brincar com fogo talvez seja menos perigoso que tentar entendê-la. A ressurreição pode tê-la restaurado, mas ainda assim, desconhecemos o que ela significa. Sem entender. O que é você? Responda? Eu prefiro seguir com a igreja do diabo. Quem sabe?

Sou homem comum. Um homem comum que tenta responder às perguntas universais que não calam. Indignação! Indignação, sim, por não encontrar palavras, por não conseguir elaborar frases, por não conseguir romper a superficialidade para encontrar algum sentido que possa responder à pergunta prosaica feita com olhos de insatisfação. O avesso pode ser um bom começo. O avesso da vida? A morte. Mas isso só pode ser um complô! Um complô contra mim e contra a América! Como a morte, um fantasma que sai de cena, ou entra, vem como um animal agonizante colocar suas garras num patrimônio de vida, que só quer falar de vida, que só quer entender de vida?

Mas vida não se entende. Desonra nenhuma, meu senhor, desonra nenhuma. Não, não se entende. Ainda assim, patino na teimosia. Como só Elizabeth Costello poderia fazer. Sim, sim, sigo minha árdua tarefa, ainda que seja homem comum e homem lento, ainda que desprovido do conhecimento da mais fina filosofia, ainda que na infância e na juventude tenha sido um insipiente, insignificante e ignaro sobrevivente. E só. Mais nada. Talvez devêssemos bisbilhotar a vida dos animais. Sim, sim, dos animais. Esses seres tidos por nós, brilhantes e inteligentes humanos, como irracionais. A vida no avesso. Puts! Na irracionalidade? Que irracionalidade? Onde?

A missão é quase insana. Nem usando parte de um universo pensante ela se desnuda em carne. Nem com as mãos lisas agarradas em Érico, Tezza, Machado, Roth, Coetezee. Oh, Abu! Sua pergunta não cala, mas as respostas se escondem no oceano negro do desconhecido. A vida é
isso. Desconhecimento em estado bruto. Mas linda. 

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