Depois de amanhã, verás país algum?

15 de Março de 2014 Maurício R B Campos Crônicas 683

Era entre quatro e cinco horas quando minha esposa me ligou, apavorada, o mundo está acabando, a coisa foi feia aqui, foi o que ela disse, visivelmente nervosa. Isso foi em um dia histórico para os meteorologistas, o dia em que toneladas de granizo caíram sobre a cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo. Ela tinha ido visitar sua mãe, e eu permaneci em São Carlos. Quando ela me disse aquilo eu me lembrei de um episódio em minha infância, em que todo o telhado de brasilit de nossa casa foi reduzido à cacos devido à queda de violento granizo. Foi impressionante, e dizem que para as crianças, por uma questão de perspectiva, se lembram dos objetos maiores do que realmente são. Naquele dia da década de oitenta eu me lembro de bolas de gelo compactas do tamanho de bolas de tênis.Mas nada se compara ao surreal cenário que se tornou Guarulhos nessa terça-feira, dia 21 de setembro de 2010. As imagens aéreas dos helicópteros das redes de televisão mostravam um cenário irreal, era como se a suíça houvesse chegado ao Brasil, os telhados cobertos de neve, as ruas brancas remetiam à um cenário de cidade europeia, a quantidade e o tamanho da área coberta surpreenderam os meteorologistas. À noite eu liguei para ela após ver essas imagens, e o pânico e uma sensação de surrealismo tomou as pessoas, fanáticos religiosos estavam gritando que era chegada a hora do fim dos tempos, enquanto carros que tentavam subir as ladeiras derrapavam em um esforço inútil de tentar vencer o atrito zero do gelo e escorregavam para colidir com o veículo que estava imediatamente atrás. Os guarulhenses deveriam andar com correntes no porta-malas, para em uma emergência equipar os pneus e deixá-los prontos para qualquer situação?Ela desceu alguns metros de sua casa e chegou ao Anel Viário, conhecida via de trânsito rápido que funciona para desafogar o trafego local, através dessa via é possível chegar da rodovia Fernão Dias à via Dutra, por exemplo. O anel Viário estava com um metro de granizo. Os moto-boy’s fizeram bonecos de gelo como nos filmes americanos. Era como o natal nova-iorquino em plena Grande São Paulo. Um bonezinho, um cachecol, óculos escuros, estava tudo ali. Tratores foram usados para retirar o gelo das ruas. No dia seguinte, a prefeitura municipal de Guarulhos informou que foram necessários quarenta caminhões carregados para retirar o gelo das ruas. “É como se eu estivesse no polo norte”, diz o gari. Na manhã seguinte ainda havia gelo nos quintais e nas calçadas.Existem profissões que são relegadas à segundo plano, à um desconhecimento geral, e que só ganham evidência em casos como esses, tragédias naturais. São os geólogos, meteorologistas, oceanógrafos, etc. Os meteorologistas não podiam falar que “sabe lá Deus o que aconteceu em Guarulhos”, então eles tiveram que buscar em seus compêndios alguma explicação científica para o fenômeno. Embora eu ainda prefira acreditar no homem do tempo da Globo News, que disse nunca ter visto algo assim na vida. A explicação científica é de que a grande quantidade de granizo que caiu em Guarulhos na tarde de hoje foi causada por um fenômeno chamado cumulonimbos, que tem como característica se formar quando há grande umidade e elevadas temperaturas, segundo o Instituto Climatempo.Procurando definições para cumulonimbos na rede mundial de computadores encontrei uma descrição apocalíptica. A nuvem que se forma com mais de 10 quilômetros de extensão e temperatura inferior a -50ºC. pode adquirir um aspecto de bigorna, o que soou muito poético, mas terrrivelmente temeroso se imaginar embaixo de uma bigorna de dez quilômetros de extensão flutuando sobre nossas cabeças. Reza a lenda que o único medo dos celtas era que o céu caísse sobre suas cabeças. Eles encaravam os exércitos romanos de peito nu e eram tido por loucos pelas legiões. Se Asterix e Obelix estivessem em Guarulhos dia 21 iriam procurar um lugar para se esconder. Ainda na definição de cumulonimbos enquanto o ar frio desce precipitando granizo, o ar quente sobe violentamente trazendo rajadas de vento avassaladoras responsáveis pela queda de árvores e levantamento de telhados, e ainda pode piorar, pois quando o ar frio se encontra com o ar quente, são geradas fortíssimas cargas eléctricas positivas e negativas em zonas diferentes da nuvem, originando relâmpagos.Não tive como não pensar no início do filme O dia depois de amanhã, na cena em que Tóquio é bombardeada por violentos granizos. Esses fenômenos atmosféricos imprevistos têm como origem a massiva alocação de CO2 na atmosfera? A partir da Revolução Industrial, quando a era do vapor determinou o início do despejo de gases em níveis nunca antes alcançados na história do planeta, o início de uma era de queima cada vez maior de combustíveis fósseis como fonte primordial de energia, além da atmosfera terrestre ter recebido também através dos dutos das indústrias quantidades preocupantes de gases tóxicos como o óxido de nitrogênio e de enxofre, que causaram a precipitação de chuvas ácidas, que apesar de não chegarem à ser um problema no Brasil, causaram inúmeros prejuízos em outras partes do mundo, parece ser um indicativo de que a resposta à essa pergunta é verdadeira. No filme norte-americano Uma Verdade Inconveniente, o ex-vice-presidente daquele país, o democrata Al Gore, demonstra graficamente o aumento vertiginoso de CO2 na atmosfera, a partir de estudos de cientistas que analisaram o gelo nos polos para determinar a quantidade desse gás encontrado nas camadas profundas de gelo, determinando assim uma relação entre a historicidade das amostras e sua quantificação através das eras. A conclusão alarmante à qual o Nobel da Paz chegou em seu filme revelador é de que esses níveis jamais alcançariam esses níveis na natureza, e que se faz necessário urgentemente buscar alternativas para a queima de combustíveis fósseis. O buraco na camada de ozônio se retraiu e diminuiu consideravelmente à partir da conscientização da população e das indústrias do perigo à que estávamos nos lançando, e de ações como a abolição do gás CFC dos aerossóis domésticos e em outras aplicações industriais. O buraco na camada de ozônio era um grande pesadelo na década de oitenta do século passado, e muitos imaginavam que ele causaria a aniquilação da vida tal qual a conhecemos. O escritor araraquarense Ignácio de Loyola Brandão imaginou um cenário apocalíptico para o Brasil do ano dois mil em seu livro Não Verás País Nenhum, o que felizmente não se concretizou, o grande desafio do século XXI é controlar as emissões de gases do efeito estufa e reflorestar em um ritmo que seja possível que outras visões apocalípticas como as do filme O dia depois de amanhã, inspirado no sucesso do documentário de Al Gore, não se concretizem nos dias em que estamos vivendo, e situações como as enfrentadas pelos guarulhenses não se torne uma rotina para os brasileiros.

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