V de Revolução

15 de Março de 2014 Maurício R B Campos Crônicas 633

V

1990. Uma
nova era de ouro para os quadrinhos, as graphic novels reinavam
absolutas, com títulos que revolucionariam a cultura ocidental:
Watchmen, Sandman, O Cavaleiro das Trevas e V de Vingança. Graças à
um amigo que tinha condições de comprar esses álbuns com preços
proibitivos para mim, eu pude ter acesso à todos os grandes títulos
lançados no Brasil na época. E V de Vingança mexeu com meu coração
adolescente.


Para quem
já era fã do punk rock e do seu caráter contestatório, aquilo foi
uma bomba. O povo não deveria temer o seu governo, mas o governo
deveria temer o seu povo. E assim tudo se iniciava com a explosão do
parlamento inglês, retomando a mítica figura de Guy Fawkes. Guy
Fawkes? Então eu ia até a biblioteca para descobrir quem era esse
cara (não havia a Wikipédia, muito menos internet, pessoal, tempos
jurássicos). Então a britânica dizia que Guy Fawkes foi um cara
que nasceu em Iorque, em 13 de abril de 1570, também conhecido como
Guido Fawkes, e tornou-se um revolucionário. Foi um soldado inglês
católico que teve participação na Conspiração da pólvora
(Gunpowder Plot) na qual se pretendia assassinar o rei
protestante Jaime I da Inglaterra e todos os membros do parlamento
durante uma sessão em 1605, objetivando o início de um levante
católico. Guy Fawkes era o responsável por guardar os barris de
pólvora que seriam utilizados para explodir o Parlamento do Reino
Unido durante a sessão.


Porém a
conspiração foi desarmada e após o seu interrogatório e tortura,
Guy Fawkes foi condenado a execução na forca por traição e
tentativa de assassinato. Outros participantes da conspiração
acabaram tendo o mesmo destino. Sua captura é celebrada até os dias
atuais (na Inglaterra, of course) no dia 5 de novembro, na
"Noite das Fogueiras" (Bonfire Night).


Então
toda aquela viagem do Alan Moore, o escritor, não saíra do nada,
mas era parte de todo um processo de amalgama de ideias e ideais em
um caleidoscópio revolucionário. Anarquia é ordem, dizia Proudhon,
e uma revolução se faz com molotovs, bradava Bakunin, o
revolucionário russo que com certeza serviu de inspiração para a
criação da figura andrógina V.


E o que
aconteceu comigo quando eu era um pré-adolescente, acontece hoje com
essa massa que toma conta da paulista. O cinema deu três dimensões
à V, e hoje a máscara de Fawkes estava na Turquia, na primavera
árabe, no Egito, no Occupy Wall Street, nos grupos de direito à
informação. V de Vingança é uma hq que deveria ter sido proibida,
pois é um molotov para as consciências. Os regimes e os governos
deveriam tê-la banido. A China proibiu a exibição do filme por um
tempo, até se dar conta do absurdo que nada mais pode ser censurado
na era da informação.


O filme
produzido pelos irmãos Wachowski tem um final diferente do
quadrinho. O final do quadrinho, ou poderia dizer, no final original,
após a morte de V, Evey assume a persona de V e continua seu legado.
V morre de modo dramático, após completar sua vingança, ele sai
como se não fosse um ser humano, como se não estivesse prestes a
expirar. Você pode matar um homem, mas você não pode matar um
ideal.



Essa é a frase chave do romance gráfico, e é a frase que marcou as
manifestações da semana passada, quando um jovem se aproximou da
tropa de choque paulistana com uma flor nas mãos. E aqueles homens
da tropa de choque, nervosos, treinados para o ataque e a selvageria,
ficam sem ação. Os fotógrafos têm o seu momento de glória. Mas
em meio à multidão que grita palavras de ordem, onde muitos vestem
a máscara de Guy Fawkes, o que impulsiona aquele jovem em direção
à choque, apesar do perigo, apesar de sua própria vida, tudo surgiu
da máxima trazida a nós por Alan Moore: Você pode matar um
homem, mas não pode matar um ideal
.

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