Diálogos da beleza

16 de Março de 2014 Valdir Gomes Crônicas 642

Não há distinção.
Homens adultos, velhos, crianças... quando elas passam por nós deixam no ar, deixam nos pensamentos mais recatados, nas conversas mais secretas, na imaginação dos senhorios a provocação sensível.
E nos provocam. Sim. Nos provocam! São sabedoras disso. Se num julgamento de suas ações a um veredicto final de um imparcial julgador certamente seriam culpadas pelo crime que nos incitam a cometer.
E nós? Entorpecidos por seus venenos as inocentaríamos.
E elas falam! Elas exalam; elas sorriem.
O salão está cheio delas! Quando ali adentram parecem todas uma só. Iguais na aparência, num mesmo desejo, anseio, objetivo: transformação.
Valores? Preço? Tudo em segundo plano. O importante é o resultado e a qualidade. Pés, mãos, cabelos e rostos. Tudo tem de se tornar diferentes de quando ali se sentam. Os negros ruivos, os grisalhos loiros, compridos curtos, castanhos negros. Rebeldes dominados. Quebradiços hidratados. Os compridos aparados.
Unhas quase perfeitas se deslumbram! Um festival de cores. Muitas vezes condizentes com cada personalidade, muitas vezes extravagantes. O que vale é a alegria. A realização... a transformação! Eufóricas e insatisfeitas seus desejos é fazer com que o já bonito se torne estupendo.
As conversas são das mais variadas. Assuntos que oscilam entre uma paquera, família e política internacional!
E enquanto conversam, tesouras nervosas repicam mechas, alicates eliminam cutículas, pentes deslizam sobre cabelos e pincéis ditam as cores.
Odores estonteantes dos esmaltes inundam o ambiente, distintos cheiros de xampus compartilham de seus perfumes e espelhos, únicos testemunhas de desejo mútuo, apreciam cada transformação narcisista.
O tempo realmente para elas pouco representa. Ficam horas ali, sentadas, imóveis, num sacrifício que para nós seria inútil, mas que para elas faz a diferença. São detalhes. Grandes detalhes, como uma simples mecha em três fios de cabelo atrás da orelha, um fio de sobrancelha a menos, um pequeno espinho numa unha decorada com uma rosa, um fio a mais no supercílio.
Secadores trabalham arduamente enquanto elas alternadamente dividem as cadeiras com lavatórios, lavatórios e cadeiras.
Um tal de escova aqui, ajeita ali, pinta acolá. Nuvens de pós, cheiros de emulsões e toucas embalando.
Horas depois saem elas. Os cabelos antes negros agora ruivos, os grisalhos agora cor de mel, os compridos curtos e os castanhos negros. Unhas transformadas, rostos maquiados, bocas perfeitas delineadas pelos batons e olhos redesenhados.
Saem ainda mais lindas de como entraram.
E para nós, os homens?
Repito: Não há distinção.
Homens adultos, velhos, crianças... quando elas passam por nós deixam no ar, deixam nos pensamentos mais recatados, nas conversas mais secretas, na imaginação dos senhorios a provocação sensível... e o que desejamos é simplesmente desfazer-lhes os penteados, tirar seus batons com beijos, desfazer suas maquiagens na compensação do mesmo tempo que ficaram dialogando com a beleza.

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