Domingo. Tarde ensolarada. No asilo. Setenta e cinco anos era o mínimo, acredito. Mas também tinha pessoas perto dos cem, ou mais, provavelmente. Alguns visivelmente senis, decrépitos e quedos. Outros mais ativos, coerentemente comunicativos. 

Contudo, todos no mesmo barco.

Um senhor, que andava se segurando num andador, assistia televisão com outros senhores. Sem controle remoto, a cada cinco minutos se levantava, com muito custo, para trocar o canal. Parecia procurar por algo específico. Talvez não existisse. Não quis incomodar, visto que aquele ato de se levantar para trocar de canal parecia uma autoafirmação.

Uma outra senhora, oitenta e poucos, varria o chão. “Não estou lhe mandando embora, não, moço. Só estou varrendo pra não acumular sujeira”, dizia a velhinha, segurando a vassoura como se fosse seu instrumento de trabalho. Dizem que ela acha que trabalha ali.

Outro senhor, com síndrome de down, exibia semblante triste, errabundo. Perguntava por uma tal de Maria. Uma das cuidadoras dizia que se tratava de uma irmã dele que havia prometido visitá-lo naquela tarde. “Cadê a Maria?”. Deu o bolo.

Impossível não pensar na vida. Não pensar no que estamos fazendo, quem estamos valorizando, o que estamos deixando de lado. Um local pesado, definitivamente. Um lugar carente. Um convite à reflexão