A voz do povo é a voz de Deus?

08 de Agosto de 2011 Ullisses Salles Crônicas 4516

Faz alguns anos que aprendi um termo em inglês que me intrigou bastante. "Take for granted“. Encontrei várias traduções para o português mas, na minha concepção a melhor delas é "ter certeza absoluta“. Considerar algo como certo, mesmo que muitas vezes isso leve ao mais puro e ledo engano, aliás já tive a oportunidade de falar sobre o perigo da certeza de estar certo em outro texto.

Pois bem, a reflexão de hoje se embasa em um desses equívocos que de tanto serem repetidos acabam sendo aceitos como verdade absoluta. É comum ver pessoas incrédulas mesmo depois de esclarecidos os verdadeiros significados dos termos que usaram errado por toda uma vida.

?Alguns professores de português já exemplificaram as corruptelas do idioma falado; usando alguns ditados populares. Vejamos; "batatinha quando nasce se esparrama pelo chão.“ Certo? Absolutamente errado. Muitos nem mesmo refletem sobre o fato de que a batata não se esparrama, mas sim, espalha a rama ou seja, a folhagem pelo chão. O certo seria portanto. "Batatinha quando nasce, espalha rama pelo chão. Ainda vai durar muitos anos até que essa corruptela seja excluída da língua viva ou língua falada como dizem os especialistas.

Um dos ditados mais erroneamente usados é o que diz; “A voz do povo é a voz de Deus”. Esse é apenas um trecho da frase original do teólogo britânico Alcuíno (735-804), que no seu contexto completo quer justamente dizer o contrário do que acreditam as pessoas que o empregam hoje em dia.

“Nec audiendi qui solent dicere, Vox populi, vox Dei, quum tumultuositas vulgi semper insaniae proxima sit”. Eis o verdadeiro significado de tal ditado; "Não devem ser ouvidos os que costumam dizer que a voz do povo é a voz de Deus, pois a impetuosidade do vulgo está sempre próxima da insânia".


Mas eu gostaria de ir além do puro significado etimológico desse ditado, afinal de contas ele nasceu em outras circunstâncias e precisamos adaptá-lo à atual realidade sociocultural brasileira. Não apenas o ditado em si quer dizer justamente o contrário do que acredita-se, mas também ele faz refletir sobre um problema grave ainda pouco discutido na sociedade tupiniquim.

Diante do indiscutível fato de que a sociedade brasileira em sua esmagadora maioria não tem acesso à educação, e portanto não sabe ler e interpretar um texto simples como esse, é correto dizer que a voz do povo é representativa? Você deixaria o destino da sua vida nas mãos de uma pessoa incapaz de ler e entender esse texto? Certamente o leitor instintivamente respondeu; “Claro que não”. Mas e então, porque deixar que essa mesma pessoa decida os rumos do país inteiro? O que vale mais? Quantidade ou qualidade?

Veja bem, não é preconceito social mas, apenas uma pergunta direta que até então poucas pessoas se fazem, mas que eu acredito ter fundamental importância no processo sociopolítico nacional. Algumas pessoas falam em constituição e nos direitos do cidadão. Eu prefiro falar na inconstitucionalidade dos escândalos que temos a cada semana, mas que nunca surtem efeito diante da inércia popular, visto que esse mesmo povo não tem como prioridade a constituição, mas sim a natural sobrevivência dia após dia.

Muita gente logo se apressa a dizer que o voto é um direito, (dever) de todo cidadão. O que na teoria é muito bonito, porém na prática pode ser usado de maneira perigosa, através da manipulação de pesquisas e enquetes com as graves conseqüências que já conhecemos. Ou os resultados das últimas eleições não são um perfeito exemplo disso?

Sabemos que o ex-presidente se reelegeu graças a pacotes sociais que são a principal prioridade eleitores beneficiados pelos mesmos. Mas esses pacotes no entanto não adicionam nada à sua vida, e servem apenas de instrumento eleitoreiro para manter no poder um presidente que não é o que você deseja, certo? Mas e então? A voz do povo não é a voz de Deus? Mesmo que erroneamente usado, esse ditado ainda assim não significa exatamente o que o resultado de uma pesquisa pode mostrar. Eu explico.

Diz-se que o ex-presidente foi eleito com 60% dos votos, o que levaria as pessoas a acreditarem que 60% da população brasileira escolheu o atual presidente. Mas vale à pena lembrar que 60% de 110 milhões de eleitores representa apenas 66 milhões de brasileiros, o que por sua vez é cerca apenas de 35% da população nacional estimada em 185 milhões. Ou seja, apenas pouco mais que 1/3 da população nacional elegeu o atual presidente. Será que esse método é de fato representativo?

Muita gente logo se apressa a dizer que o voto é um direito, (dever) de todo cidadão. O que na teoria é muito bonito, porém na prática pode ser usado de maneira perigosa, através da manipulação de pesquisas e enquetes com as graves conseqüências que já conhecemos. Ou os resultados das últimas eleições não são um perfeito exemplo disso?

Eis que eu repito a mesma pergunta. O que vale mais em um processo eleitoral? Quantidade ou qualidade? O atual presidente não foi eleito pela maioria absoluta da nação. E o que é pior. Foi eleito por uma parte a meu ver despreparada para tal processo. Entretanto seria perigoso deixar nas mãos da “elite” o destino do país, ignorando completamente o desejo popular. Mas o que fazer diante deste impasse? Deixar que o povo despreparado seja covardemente usado como curral eleitoreiro tomando parte no processo eleitoral? Ou deixar apenas que uma minúscula parte decida por todos? Seria como ter um pequeno grupo todo coeso em torno de uma idéia votando 100% de acordo com a mesma, mas indo contra o desejo de milhares de pessoas.

Na minha opinião não devemos ceder aos extremos. Nem ter um povo despreparado votando e tomando as rédeas de um país de dimensões continentais como o Brasil, e nem tampouco ter um grupo ínfimo de pessoas votando em prol de suas próprias convicções. Precisamos rever nosso processo eleitoral e garantir de fato estudo de qualidade para o povo. Assim dentro de algumas gerações, teremos a feliz combinação de quantidade e qualidade, podendo então usar mesmo que equivocadamente o célebre ditado. A voz do povo é a voz de Deus.

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