Jota Cê

19 de Abril de 2014 sergio geia Crônicas 521

Lembrei-me daquele dia, e, principalmente da nossa conversa, quando abri a correspondência destinada a mim, de um tal de Pintores com a Boca e os Pés Ltda. “Pintores com a boca?”, pensei. “E com os pés?” Hum, sei não... Eram cartões com desenhos de paisagens maravilhosas, pintados, segundo a cartinha que os acompanhava, com a boca ou com os pés. Eles pediam um pagamento pelos cartões. R$39,50. Pagamento? Sei. Fui pesquisar. E descobri que se tratava de algo sério, uma associação fundada em 1956 por Erich Stegmann, que tem por objetivo proporcionar “uma vida independente para artistas que não têm o uso de suas mãos. Todos os membros dessa sociedade internacional são incapacitados de pintar usando suas mãos, e todos são beneficiados com a satisfação em poder ganhar seu próprio sustento, independente de caridade”. Sacumé, né? Tem muitos aproveitadores, a gente precisa se acautelar. Mas a conversa se avivou na mente.

“Preciso de um padre”, eu disse, já procurando não sei o que na maçaroca de papéis sobre a mesa. Ele me olhou assustado. “Um desenho”, acrescentei, voltando os olhos para os papéis. “Um desenho de padre”.

Embora deficiente físico (depois de um acidente de moto, perdera os movimentos da mão e do braço direito), e destro, Jota é um bom desenhista com a mão esquerda. Aliás, teve de reaprender
a fazer tudo o que fazia antes, agora usando somente o braço e a mão esquerda. Conseguiu. Exceto tocar violão, talvez, sua maior paixão

Jota é um artista. Tocou na noite. Deu canja com gente da pesada, como o Lula Barbosa, o Marcinho Eiras, o David Maia, a Maria Eugênia. Depois do acidente, sem os movimentos do braço direito, abandonou o violão. Mas a arte não abandonou Jota, que me entregou naquele
final de dia o desenho que pedi, com traços perfeitos, simples, prontinho para estampar a capa do meu livro.

Conversávamos sobre um sujeito que se dizia inválido para o trabalho, que não podia fazer mais nada, que pensava em requerer aposentadoria porque tinha perdido os movimentos de uma das mãos após sofrer um acidente de trabalho. Jota estava indignado. “Como inválido? A pessoa não tem noção da sua real capacidade...” Argumentei que as pessoas adoram se vitimizar. “Talvez seja mais fácil viver representando o papel do coitadinho, do pobrezinho...” Ele retrucou: “A vaga de um supermercado destinada ao deficiente físico, por exemplo, foi criada para a pessoa com
dificuldade de locomoção, mas o cara que tem um problema na mão também usa a vaga e se acha no direito; o mesmo acontece na fila de banco. Isso, pra mim, não é o exercício de um direito, mas sim um abuso”.

Jota é um cidadão, um cara lúcido, dono de um pensamento refinado, que precisa de muito pouco pra viver, que detesta shopping, que curte os textos do Paulo Leminski, a música do Itamar Assunção, que não troca de celular três vezes por ano, mas somente quando o aparelho pifa,
que prefere a panela e o fogão à mesa do restaurante, que valoriza o que tem. E um artista de mão cheia. Pra sobreviver, assim como centenas de milhares de artistas brasilianos, precisa enfiar as mãos onde a arte não chega.

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