Mais amor por mim, mais amor no mundo

24 de Abril de 2014 Elias Lima Crônicas 1638

"Ou você vive pelo medo ou pelo desejo" Já escreveu Clarice Lispector em seu romance de estréia intitulado "Perto de um coração selvagem". Essa frase em seu livro reflete muito os nossos dramas cotidianos.

Estamos vendo recentemente o caso do garoto que foi morto supostamente pelo pai e a madrasta. Vejo famílias como esta, outras como vejo nos shopping centers e vi no caso da menina Isabela que foi morta brutalmente pelo pai e pela madrasta, um declínio da família tradicional tão defendida pelos conservadores.

Todos nós, em nossa sexualidade, somos perseguidos. Os heterossexuais são perseguidos para manter-se enquadrados nesta sociedade heteronormativa. E os que ousam viver diferente já sabem que vivem sob pena de morte não oficializada.

O que quero dizer é que muitas famílias se constroem por medo. Mas que medo? Medo de serem rejeitados por esta sociedade desumana. Muitas famílias tradicionais (mãe, papai, filho e cachorro) são fachadas para os heterossexuais viverem infelizes e muitos uma vida dupla, muitos outros, uma sexualidade clandestina.

E no que resulta tudo isso?

Se temos os nossos desejos reprimidos, negados por nós mesmos, esses desejos se transformam em raiva, ódio, violência. E quem tem menos força física na sociedade? Crianças, idosos e animais.

E numa família tradicional, quem não tem cachorro, tem ao menos algum filho. E para quem é direcionado todo esse ódio à sociedade machista: às crianças. Elas morrem porque estes adultos estão matando os seus desejos de viverem em mais harmonia consigo, com os seus desejos. E numa explosão de fúria, raiva, tristeza, ódio e violência vemos casos como deste menino, assassinado brutalmente por quem deveria amá-lo condicionalmente.

Não inocento os assassinos, mas em contrapartida não os culpo solitariamente. Ainda somos escravos dos desejos da sociedade, ainda queremos ser aceitos no mundo. E no quê nos tornamos? Nuns monstros.

Então acho e creio ser menos doloroso para si e para os outros viver pelo desejo. amar-se para poder amar os outros. Só assim, poderemos nos elevar individualmente, socialmente e espiritualmente.

Temos que parar de carregar esses desejos infantis de sermos aceitos. As pessoas geralmente detestam mentira e dizem isto. Se mentimos para nós mesmos, de quem vamos exigir verdades?

Viver nossas diferenças é que nos fazem ricos intelectualmente, pessoalmente, socialmente e assim uma nova sociedade pode se construir a partir da auto-afirmação e da auto-negação de si.

Vamos valorizar nossas diferenças, amá-las e respeitá-las. Ser igual à todo mundo já se mostrou ser um caminho inútil e suicida. Por que então negar os nossos desejos?

Temos que ser livres para sermos quem realmente quem somos. Para amar quem quisermos. Para transformar os "desconhecidos" de nós em "conhecidos". Toda afirmação de diferença numa sociedade que se diz "igualitária" é uma afronta, então que sejamos afrontas ambulantes, pois o igualitarismo é uma das demagogias que só alimentam a ilusão de uma possível humanidade nos seres humanos, se é que somos humanos ainda. Vamos questionar mais a outricidade, esta vizinha que se chama "opinião alheia" como define Lya Luft em seu livro "Perdas e Ganhos" (2003, Ed. Record).

Se somos donos de nós, servos serão os que se opuserem à nossa verdadeira essência. Realizar-se e não sucumbir-se. Sermos felizes em nossa existência. Falta amor no mundo não é?
É porque falta amor em nós mesmos. Se nos odiamos, nos desprezamos, quem vamos amar e respeitar?

Alguns se apegam à animais, outros se apegam ao meio ambiente. É bom, eu sei. Mas enquanto não nos salvarmos da opinião alheia, de nada adiantará salvarmos as baleias, as abelhas nem tentar conscientizar as pessoas da importância da saúde do planeta. Como já disse, se somos desprezados e ignorados por nós mesmos, porque iremos dar importância ao outro?

É dessa lógica que vivemos. E é dessa lógica que nos destruimos dia após dia. Está na tv, nos noticiários. Crianças, mendigos, gays, negros, mulheres, travestis, transexuais, doentes mentais, animais e idosos. Todos maltratados porque nos maltratamos. Em troca de quê? Da miserável aceitação na sociedade que só nos sufoca a vida, a nossa existência e nos deprime?

Está na hora de começarmos a nos ouvir e questionar. Já passou da hora de sermos servos e tornamos líderes de nós mesmos. Sem medos. Para saber viver é preciso coragem, ousadia, força e perseverança, outras vezes, insistência mesmo e uma boa dose de humor. Se ouvirmos demais a dor, enlouquecemos e matamos quem está perto de nós.

Então vamos parar de nos odiar e vamos descobrir quem realmente somos, sem mentir? Sem pensar nos que os outros irão dizer?
Vamos por um momento, pensar em nossa felicidade, em nossa essência para que possamos viver mais plenamente a nossa existência?

Não vamos enriquecer as farmácias e sim, o espírito, o nosso intelecto, o nosso corpo e a nossa mente. Vamos dizer "sim" para nós e "não" para os desejos alheios que nos anulam e nos deformam.
Vamos de uma vez por todas, se libertar destes personagens que somos e viver o nosso "eu" no palco central deste mundo, nesse espetáculo muito rápido que é a vida. E não seremos mais fantoches em cena, seremos seres humanos de verdade, ao que se refere à lógica que temos de "ser humano".

Vamos pensar e depois escolher obedecer. Vamos questionar antes de fazer. Assim daremos o primeiro passo para a nossa própria história. Mas esta escrita por nós e não pelos olhos dos outros.

Mais amor, mais paz dentro de nós é mais amor, mais paz no mundo. Ou nos perderemos entre monstros da nossa própria criação, como cantava Renato Russo.

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