A Partida

Hoje eu decidi parar
Decidi deixar a vida passar
Sem me deixar levar por toda essa loucura.

O artista é um suicida que insiste em viver
Carregando sua angústia existencial
Vaga nessa Terra em busca do que nunca vai acontecer
Sofre demasiadamente por desejar o que nunca vai ter
Então vive de ilusão, por heroísmo ou qualquer idealismo
Para morrer todos os dias da forma que se quer:
Romanticamente.

Hoje eu quis sentar no ponto de ônibus
Ao lado de pessoas que não conheço
Não acho elas estranhas
Pois dividimos o mesmo mundo
A mesma realidade
Somos meros corpos jogados nessa industrialização
Da vida
Do amor
Da morte
Da juventude
Da violência
Dos nossos sentimentos
Do nosso resquício de humanização.

Sento e vejo ônibus lotados
Pessoas insatisfeitas
Semblantes cansados, estressados, angustiados
Trabalham demais
Cansam-se demais
Recebem pouco
Não tem tempo para viver de verdade
Viver é um eterno sofrer com alguns intervalos de alegria e prazer.

Vi todos os passageiros presos
Em seus horários, em seus compromissos inadiáveis
Em suas preocupações com o patrão
Vi crianças indo para escola
Para servir de mão-de-obra para o Capital (Só para isso)
Nessa tanatopolítica que quer somente a sua exclusão no final.

Ouvi as mulheres ao meu lado conversando
Senti o vento soprando em meus ouvidos
É uma tarde de sol leve
Cabelos dançando sob o ritmo do vento
Nada me irritava
Nada me angustiava.
Estava livre.

Vi o crepúsculo
O céu azul misturando-se com o vermelho que resulta em um rosa maravilhoso
Um espetáculo de cores vivas
Acima de mim, de graça
Umas das belezas mais perfeitas
Assim, sem propaganda para deturpá-la
Sem anúncios para modificá-la e transformá-la em mercadoria.

Confesso, sou amante do crepúsculo
Sinto minha vida neste momento se encontrar com o Universo
Onde encontro todas as minhas forças
E encontro o meu sossego
Neste mundo caótico que só nos põe ao desespero.

Eu e a Natureza somos parceiras, somos amigas
Confidentes, cúmplices em nossos desejos e mistérios
Fiéis ao nosso eterno sonho: a justiça que nos trará paz, sossego e descanso
Ao nosso espírito doente e febril
À nossa alma drogada de remédios
De publicidades desumanas
De ignorância altamente dosada pelos meios de comunicação
De intolerância livremente declarada a todo instante
Da crueldade aplaudida com mãos de sangue
Sem chance de uma possível esperança.

A morte do artista é enxergar
Por detrás dos bastidores, por detrás das máscaras felizes
A morte que silenciosamente ronda
Pesando a nossa existência
Dilacerando-nos a toda instância
Como uma epidemia sem cura
Com tratamentos que nos tornam zumbis
Alienados de nós mesmos
Obedecendo todas as ordens vigentes
Que silencia nossas angústias com produtos de beleza
Com roupas de marcas, com vinhos caros, com carros importados.

Ninguém mais vive
Todos estão mortos.
Acreditando ilusoriamente que estão vivos e que estão vivendo do jeito que querem.
Fissurados estamos
Pela televisão, pelo outdoor, pelo jornal, pela academia
Pelas drogas, pelo sexo, pela religião, pela insistência da nossa cruel ignorância.

Como suportar todas essas sensações?
Sem ser triste?
Sem afastar a melancolia
A escuridão
A solidão?

Então eu queimo em meus sentimentos
Ardentemente sofro em meu próprio inferno:
O desejo de um mundo melhor, mais justo pra todos.
E queimo até a essência
Delirando até a minha existência
Eu sou jogado ao fundo do poço
No escuro com estes reais pesadelos que enxergo
Ao ligar a tv, ao ir para as ruas, ao ver o mendigo dormindo num chão frio
Sem cobertor, pior: sem compaixão alguma.

E queimo mais.
Porque os pensamentos não cessam de me torturar.
Penso nos corpos das prostitutas ao “deus dará”, jogadas à pena de morte que é a negligência de um Estado fascista.
Elas são julgadas porque trabalham com prazer numa sociedade que considera digno resignar - sem nessa cultura do desprazer.
Quem se atreve a ter orgulho do prazer que sente, está condenado.
Não há fogueiras, mas há exclusão social numa sociedade que mata Cristo todos os dias em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

O que vai de contra uma tradição onde nos castra o prazer de viver, é castigado por desobedecer o ideal: o bom e o mal, o moral e o imoral, o perverso e o santo.
Como se tivessem que ir se confessar por serem livres e viver da maneira que querem.
A liberdade vai de contra o sistema capitalista que quer que nos droguemos de prozac’s, de remédios para emagrecer, do culto ao corpo, do narcisismo alienador, da moda que nos dita, da ilusória mas fatal idéia de eterna juventude e do consumismo que nos quer convencer que é comprando que se é feliz e não pensando, refletindo, questionando.

Estou queimando mais
Por pensar e sentir assim
É o meu castigo por ser diferente da maioria
Ser igual a todo mundo é sinônimo de retardo mental coletivo.
Ser diferente pode ser letal.

Mas após queimar-me em meus pensamentos, sensações e sentimentos
A chama se apaga e eu ressurjo das minhas próprias cinzas.
Estou renovado.
Agora vou voar.
Estou leve de todas as dores do mundo.
Hoje a noite é só preciso esquecer de tudo isso e fingir que viver é bom.
Até que chegue o meu momento
E eu o aceitarei de coração aberto
Como quem esperou toda a vida por ele
Por um descanso
Como quem esteve numa névoa de dores e sofrimentos asfixiantes
Como quem viveu pouco mas sofreu demais
E com uma alegria autêntica e confortante
Em meu último movimento eu sorrirei,
Em direção à eterna luz
Eu então partirei.