Ultimamente ando meio cabreiro com a igreja dos homens. Está certo que a igreja, na sua dimensão humana, tende a refletir em boa medida, as misérias desta classe cada vez mais pobre. Mas esta justificativa por si só não me faz engolir uma porção de coisas que prefiro nem falar.

Só sei que apesar disso, outro dia não resisti e resolvi dar uma entradinha na Catedral. Esperava que com a igreja vazia, abstrações como o silêncio, a contemplação dos afrescos, as imagens dos santos, o delicioso cheiro de incenso, pudessem me levar a um gostoso passeio matinal, ainda que breve; uma viagenzinha amorosa, quem sabe bater às portas do Paraíso, hein?, tocar as mãos do Cristo, sentir o abraço das Marias, compartilhar umas frutinhas com o velho Chico debaixo de uma jabuticabeira.

Não tenho boas recordações da Catedral. Estive lá algumas vezes testemunhando a união de camaradas. Não sei se ainda é assim, mas naquele tempo casava-se muito. Marcavam pras quatro. Recebíamos o convite e tava lá anotadinho: “quatro da tarde”. Como sempre pontual, chegava com alguns minutos de antecedência. Depois de ver dúzias de noivas desfilarem seus véus enoooormes pelo tapetão, a minha noiva, quer dizer, a do meu camarada, aparecia portentosa na porta da igreja. Isso lá pelas seis, sete da noite.

Meu amigo Zé Eduardo, de Sampa, me disse outro dia que agora a moda é chegar no horário. Nada de atrasos. Muito bom. Isso se chama respeito aos convidados, coisa que muita noiva desconhece. No entanto, agora chegam no horário, mas inventam um supermercado de cafonices que é um tédio só.  Trombetas, clarins, rosas, imagens, papel picado. Noivos atores. Pose aqui, pose acolá, sorriso de comercial de pasta de dente. Não é o cameraman que está lá para registrar um fato. O casamento é concebido em função da filmagem. Aliás, o cameraman manda mais que padre. Sentido do sagrado zero.

Mas não quero falar de casamento. Quero falar do meu momento zen em uma manhã ensolarada na Catedral de São Francisco. Confesso que me decepcionei um pouco. Não encontrei o silêncio que esperava, o pontilhão que imaginava atravessar para encontrar o céu. Encontrei meu querido
padre Marquinhos falando para os seus fiéis lá longe, naquele altar exuberante. Por falar em altar, sempre admirei o altar da Santa Teresinha, onde cresci. Mas altar que é altar, venhamos e convenhamos, Fred, é o da Catedral. Que beleza. Quantas pessoas cabem lá? Hein?

A Catedral estava cheia de fiéis participando da missa do Santíssimo. Marquinhos arrumou um moço bom na música, o povo todo delirava vendo o sacerdote, seguido de seu séquito, deslizar pelos corredores apertados trazendo às mãos o poderoso Salvador.

Olha, meus queridos, admito que queria o silêncio. Admito que me decepcionei um pouco ao entrar e trombar com a confusão toda. Mas, pra minha surpresa, quando dei por mim, já estava fazendo a travessia. Não consegui sentir as mãos furadas do Cristo, o abraço das Marias, ou mesmo provar das frutinhas silvestres do amigo Chico. Ainda bem. É cedo pra isso. Mas acho que provei sim um pouco do gostinho do céu. E é doce.