De volta pra casa

05 de Maio de 2014 Elias Lima Crônicas 1660

Gostaria de dizer que este não sou eu.


Eu morri já faz tempo.


Morri quando vi minha mãe apanhar de meu pai.



Morri quando me descobri homossexual numa família
homofóbica, racista e fascista.



Morri quando acreditei que o mundo poderia me salvar, quando
acreditei que os meus amigos seriam fiéis a minha lealdade, ao meu amor por
eles, pois já não tinha mais família para amar.


Morri e ainda morro. Todos os dias.



Quando sem querer, ouço um noticiário na tv. Violência,
tragédia, injustiça. Corpos. Mais corpos para o Estado somar em sua
tanatopolítica.



Então eu morro, mas lentamente. Lembrando de todas as mortes
anteriores e assim, morro com mais dor atualmente.


O que me restou de mim?



Um ilusão:



A de que um dia estarei vivo.


Aqui jaz um menino assustado com o seu pai. Um adolescente
castrado em sua vontade de viver.



Um jovem decepcionado com a vida. Um adulto enfraquecido de
viver.


Meu espírito está perdido.



Minha mente anda vagando por ai, sem caminho certo, sem
destino.



Em meu corpo: um abismo.


Este não sou eu.



Eu estou morto.



Este corpo é uma mentira. É uma tentativa insana.



É uma esperança teimosa de viver.


Minha alma está cansada e já não anda. Não se movimenta.



Pesada de dores, decepções e mortes existenciais, ela ficou
tetraplégica.



O que restou do meu corpo, se rasteja em lama podre e suja.



Suja de mentiras, sujas de sangue de negros e pobres, em
lama suja de esperanças e sonhos.



Em solo de soldados, somos meros números contabilizados pela
morte programada no cotidiano.


Eu acho que ainda posso tentar respirar e quem sabe,
sobreviver?



Mero sonho, eu ainda insisto em acreditar. Ingênuo.



Mas também não quero partir tão cedo.



Não quero dar a eles, meus executores: a minha derrota já
premente.


Enquanto tentar me levantar e conseguir respirar, vou
incomodar.



Vou dizer, vou chorar, vou gritar aos quatros mundos todas
estas mentiras que nos matam todos os dias. Numa esperança estúpida de me
curar.



Numa ilusão obscura que um dia essa Terra reinará paz, amor
e diferenças respeitadas, valorizadas.


Em cada sonho,



Eu insisto e me encontro.



Sem corpo, sem espírito, sem alma. Com uma mente perturbada
ainda vou tentar.



Um romântico, um idealista, um número nas estatísticas que
está doente e com defeito.



Um robô que pensa, que sente.



Já não presto pro sistema, nem pros seus soldados.


Então aqui jaz: esperanças ingênuas, sonhos inocentes,
desejos de criança.



E que agora respira sangue todos dos dias, cheiro de
mulheres maltratadas, ainda vistas como objetos e mortas por seus maridos e
parceiros.



Respiro todos os dias a morte de homossexuais, religiosos
pregando ódio, violência e crucificando o pano fundo de seus mercados: Cristo.



Então ainda mais insisto: Sou mercadoria, produto do
sistema: vencido. Um robô fabricado e programado com muitos erros: o sistema
falha, e às vezes nascem humanos nessa estrutura de poder.



Então nasci para sofrer juntos das injustiças, da decadência
do pensamento, da reflexão, do amor ao próximo.



Eu não vivo, insisto em me rastejar neste sombrio castigo: a
morte insistindo em viver e adiando a si mesma, a sua vez.



Então este corpo não é meu. É do Estado, é do sistema
patriarcal e capitalista.



Mas os sentimentos são genuinamente meus. Minha insistência
e perseverança são virtudes propriamente minhas.



Minha teimosia é o meu vício, minha fissura.



Antes que a morte física venha, quero brigar com este
sistema. Quero desconstruir este discurso que nos diminui, nos tornam zumbis,
números para a iminente morte intelectual, para a nossa dessubjetivação.



Então vivo por rebeldia, para incomodar aqueles que me
criaram e que tentar acabar comigo todos dos dias.



É uma luta entre eu e meus pais, eu sei.



Então que eu morra em paz, sabendo que fiz tudo que pude
fazer, sem hesitar, sem ter medo de sofrer.



Porque a finitude é certa, o fracasso progride, mas a esperança,
ah, a minha esperança será eterna, quantas vezes eu retornar.



E quando eu fechar os olhos para sempre, direi: estou indo
de volta pra casa.



Estou indo em paz. 


Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

Leia também
CIDADE DOS PATOS (cordel infantil) há 8 horas

Vivia na bela cidade dos patos Um velho pato que contava fatos De uma fam...
madalao Infantil 5


"Feliz...dia...de...São João" ... há 15 horas

Quem dera ir mais além, cantar mais alto Sobre esse chão salgado onde na...
joaodasneves Poesias 5


No Vento da Literatura há 16 horas

Gosto da poesia quando chega de surpresa... Pode não ter beleza, mas q...
a_j_cardiais Poesias 30


Bendito Amor Eterno há 2 dias

Quando pensamos que Jesus disse que todo aquele que lhe foi dado pelo Pai, ...
kuryos Artigos 13


"Vendo" há 2 dias

Hoje vendo um corpo sem alma, e um extrovertido coração partido, uma ...
joaodasneves Acrósticos 7


"Te amo vinho tinto" há 2 dias

Tu meu querido vinho tinto, és e serás a minha inspiração, Ter o cop...
joaodasneves Poesias 10