Recebi a notícia de que meu amigo Jorge está com dengue. E também meu amigo Pedro. E Du também. E Marcos está com suspeita. Como também o professor de desenho da minha filha. Seu amiguinho de inglês pegou. A cada acesso ao facebook, vejo um novo amigo picado pelo xexelento. Antigamente ouvíamos relatos de dengosos pela cidade, mas a coisa parecia distante, como se a realidade existisse apenas além das muralhas de nosso castelo de fadas. Às vezes alguém da família, ou um amigo longínquo. Mas não se confirmava nada. Agora não. O mosquitinho vem fazendo estragos e já vejo uma nuvem deles se aproximando do Paraíso. Dia desses corri ao médico com meu pequeno gigante militar. Uma gripezinha danada. Ainda bem.

Como você deve saber, no último mês passei às turras com os preparativos do lançamento do meu livro. Deu trabalho. Porém, um trabalho prazeroso, como deve ser todo trabalho. Quem faz o que gosta dispensa aposentadoria. Eu, por exemplo. Se conseguisse viver de meus textos seria
uma beleza. Escreveria até morrer. Mas confesso que não via a hora de chegar o tão esperado dia. Ansiedade? Nada! Não era tanto pelo evento. Estava sim incomodado com a simples possibilidade, cada vez mais real, desse insetozinho sem-vergonha vir bater à porta da minha casa. Já pensou? Eu largado na modorrência, entregue a cuidados terapêuticos, me abastecendo de soro o dia todo e sofrendo das terríveis dores corporais, que dizem ser intensas!? E mais! Noite de autógrafos. O autor não veio. Está dengoso. Eu, hein?

Aliás, adivinhe o que mais ouvi na noite de lançamento? “Já fez filhos?” “Já!” “Plantou árvore?” “Já!” “Então já posso morrer?”, eu indagava em tom jocoso. E dizia: “Há como desplantar, meu amigo? Sim! Desplantar! Pois vou já! Lá em Cunha. Tratar de dar cabo da
pobrezinha”. Bobagens, caro leitor. Bobagens.

Mas estou com meu amigo Lucas: o homem perdeu a guerra. Pois é. Um bostinha de um mosquito tolo. Temos acesso a um tesouro a que todos chamam de conhecimento. Sabemos como evitar a proliferação. Sabemos o que fazer. E o que não fazer. E mesmo assim, não somos capazes de nos organizar minimamente a ponto de evitar essa doença de terceiro mundo.

Isso daria um belo filme hollywoodiano, não? Um desses Spielbergs americanos traria um quê de Independence Day ao curta. Acho que ficaria bom, embora o perigo não estivesse entregue aos feinhos alienígenas, mas a simples mosquitos de água de sarjeta.

Não se trata de chafurdar na arrogância humana, meu amável leitor. Quando Cortella fala que você é um entre 6,4 bilhões de indivíduos, pertencente a uma única espécie, entre outras três milhões de espécies classificadas, que vive num planetinha que gira em torno de uma
estrelinha, que é uma entre 100 bilhões de estrelas que compõem uma galáxia, que é uma entre outras 200 bilhões de galáxias num dos universos possíveis e que vai desaparecer (*), ele simplesmente está dizendo isso: que você não vale nada.

Que a gente não vale nada, tudo bem, a cada dia que passa o homem com seus atos dá provas disso. Mas sucumbir diante de um mosquito? Ah, peraí...

* Qual a tua obra? Mario Sergio Cortella, pg.26.