Eu caminhava na Santa Teresinha quando ele se aproximou:

“Oi, Geia”. Respondi no automático: “Opa!”

Ele agora seguia ao meu lado. Puxei da memória. Nada. Eu não o conhecia. Aí ele clareou tudo: “Eu acompanho suas crônicas no Matéria-Prima”.

“Ah, legal!”

“O meu domingo não é o mesmo sem elas. Sabe, Geia, a que mais gostei foi aquela daquele homem na praia da Almada. Em Ubatuba. Lembra? Solitário. Sem ninguém. Eu me identifiquei com ele. Também sou sozinho. Não casei. Vivi com meus pais até eles morrerem. Hoje moro sozinho. Sou aposentado. E tem aquele negócio mesmo da gente não falar com ninguém. Tem fim
de semana que passa e quando me pego em casa, vejo que não conversei com ninguém. Eu sinto falta, sabe? Você não tem ideia de como meu coração tá acelerado agora. Busquei coragem não sei de onde para vir falar com você”.

“Qual o seu nome, amigo?”

“Pedro”.

“Poxa, Pedro, fico feliz em saber que minhas crônicas lhe fazem bem. A gente escreve e no fundo pensa que alguma coisa que tá ali possa proporcionar algo, qualquer coisa, ainda que apenas prazer ou um sorriso. E deixe pra lá esse negócio de ficar nervoso. Venha falar comigo sempre que quiser”.

“Sabe, Geia, às vezes me bate um certo arrependimento. Eu tive diversas oportunidades de estabelecer um vínculo com alguém. Mas nunca tive coragem de abandonar meus pais. E eles viveram muito. Meu pai morreu primeiro. Viu como sua crônica da viúva é verdadeira?, he,he,he! Meu pai morreu com 79. Minha mãe, com 85. Então, com a morte deles eu pensei, ah, agora caso. Que nada. Eu já era uma pessoa cheia de manias, não ia conseguir mais viver com uma mulher debaixo do mesmo teto. Minto. Até pensei num compromisso sério com a Inês. Mas você acredita que a Inês enfartou? Morreu, Geia! Morreu!”

“Verdade? Poxa... Sinto muito...

“Depois dessa não quis saber mais. Foi um sinal. Sabe, Geia, eu acredito muito em sinais. Ninguém dá bola. Eu dou. Eu faço conexões. Outro dia na fila da padaria vi uma cena. Era uma mulher tentando pegar um chaveirinho. A moça do caixa, extremamente mal-humorada, a interrompeu de forma grosseira: ‘Esse aí não é pra pegar, não! É o daqui de dentro’.
A mulher ficou sem entender. Eu intervim: ‘É que esses são apenas amostras. A senhora escolhe e a mocinha pega um igual lá dentro.’ Educadamente, ela agradeceu. Mas desistiu do chaveirinho. Tem gente muito mau- humorada, Geia. A verdade é que não gostam do que fazem. Em compensação, num supermercado, encontrei um açougueiro humorista. A fila estava enorme...”

Conversamos muito naquele dia. Na praça, durante minha hora de caminhada, e depois, tomando um suco na padaria. Acho que fiz bem a Pedro. Acho que ganhei um novo amigo. Mas não sei não... Esse negócio de ele às vezes passar o fim de semana sem falar com ninguém tá meio mal contado...