Era
tarde de domingo quando a chuva começou a dar sinais que viria. Ela
estava sentada na janela quando sentiu um vento frio tocar seu rosto.
Era vento de chuva. As arvores balançavam no ritmo do vento e ela
observava atentamente cada movimento mais brusco. Em questão de segundos
o vento tinha se transformado numa chuva forte e incessante e enquanto
essa tal chuva caía ela passou a recordar a infância.
"Como era bom poder me jogar nessa onda sem me importar com nada.
Saudades..." - pensava - Sua vida já não era mais a mesma há muito tempo,
desde que seu pai se foi, tudo ficou diferente. Há quanto tempo ela não
sabia o que era sorrir? Há quanto tempo ela não sabia o que era correr?
Há quanto tempo ela não sabia o que era felicidade?Olhou mais um
pouco as arvores balançarem no ritmo do vento, pareciam bailar, e a cada
gota mais forte que caía, sua vontade de se sentir feliz novamente,
aumentava. Nesse momento, sua avó estava na cama, deitada, abatida pelo
cansaço diário. Ela olhou disfarçadamente para o quarto, percebeu que a
avó estava dormindo, voltou a olhar a chuva, que nesse momento não só
caia mas despencava. Apoiou as mãos na janela de madeira, subiu um pouco
o corpo, colocou o pé esquerdo também na janela e se sentou. Agora
metade do seu corpo estava para fora da janela e a outra metade para
dentro. Girou o corpo tão rapidamente que quando deu por si, ela já
estava totalmente em baixo d'água. Caminhou de encontro a uma gota de
orvalho e ficou a observá-la enquanto a chuva penetrava-lhe entre os
cabelos cacheados. Nesse momento suas roupas já estavam encharcadas,
seus cabelos molhados escorriam por sobre os ombros e ela sem se
importar com o que poderia acontecer dali pra frente, se levantou e
correu pelo quintal meio inundado. Enquanto corria, era possível ouvir
os "plac plac" dos pequenos pés baterem na água. Olhou para os céus e só
aí que foi perceber que a felicidade estava ali novamente. Uma gota
mais forte caiu em suas mãos, ela a olhou e sorriu. Talvez fosse a
felicidade.