O frango caipira na mesa. A conversa rola solta na cozinha. Política, esporte, gente que morre. “Você lembra do Alcebíades, pai? Marido da Margarida do seu Genaro? O Genaro, pai? Aquele que certa vez bateu o carro aí na frente?” “Ah, o Genaro!” “Então, o Alcebíades era o marido da Margarida”. “O Alcebíades eu não sei”. “Claro que sabe, pai! Ele vivia no bar!”

Eles contavam ao meu avô que o Alcebíades tinha morrido de câncer. Eu no quintal, ao lado do pé de araçá, alheio à conversa, sem imaginar naquela época o que significava a palavra câncer, nome feio que as pessoas evitavam falar, e que eu conheci mais de perto muito mais tarde. Apanho um araçá azedo que dói. Arrumam uma mesinha vermelha no quintal. Colocam uma toalha branca, um prato, talheres. O sol claro. Céu azul. No meu prato tem frango, macarrão, que não falta aos domingos. Sento na cadeira e solitariamente almoço. Na cozinha, a discussão corre solta.

O relógio da sala faz tic-tac, tic-tac, tic-tac. No sofá, tento dormir um pouco. Meus pais batem pro velório onde jaz o meu avô. O outro, por parte de pai. Só escuto o tic-tac, tic-tac, tic-tac. Sem
querer ou mesmo dar conta, me concentro nas batidas, pensando no meu avô. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Onde será que ele vive agora? O sono vem.

A calçada estreita da Barão à espera de nossas pernas saltitantes. Dá-se a largada. Em cada instante, um na frente. Eu acelero e me deparo com um pé. Sinto o mergulho. Um rodopio esquisito. A batida. Um cheiro de pó. Ardem braços, pernas, cabeça. Levanto já me limpando,
para aceitar conformado a derrota. Bem calmo, vou dizendo que “tá tudo bem”. Até pintar de vermelho a calçada.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Estão discutindo sobre dinheiro. Meu avô reclama de alguma coisa. Alguém se levanta e corre pro banheiro chorar. Na cozinha também tem choro. Meu avô levanta da mesa, vai em direção ao seu quarto, fecha a porta. Meu avô dorme sempre depois do almoço. Um pouquinho só. A sesta. Uma meia hora. Pode a casa estar caindo, pode surgir o compromisso que for, até mesmo um velório. “Eles não vão esperar você acordar, nego!” – escuto minha avó dizendo. Ele não quer nem saber.

Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Acordo com aquela sensação agravável. Olho o relógio. Não pode ser. Só dez minutos? Não acredito. Parece que foi tanto. A casa silenciosa. Saíram todos, diz minha avó sentadinha do meu lado, numa cadeira de balanço, escutando rádio, fazendo crochê. “Só ficou seu avô, que tá dormindo”. Escuto o Silvio Santos. Minha avó adora o programa de rádio do Silvio. Minha bisavó adorava o Silvio. Minha avó adora o Silvio.

Tenho vontade de dormir de novo. De ouvir o tic-tac, tic-tac, tic-tac. O Silvio falando no rádio. Tenho vontade de voltar ao quintal, ao pé de araçá, à hora do almoço. Ontem foi mais suave. E mais colorido. E mais lírico. Hoje é mais cruel. E mais cinza. E mais triste. Meu avô não dorme mais depois do almoço. Minha avó não faz mais crochê. Não tem mais almoço de domingo. Não tem mais araçá. Não tem mais família reunida. Nem casa tem. Não sobrou nada.