Ele era estudioso, sadio, bem criado, corria atrás dos sonhos e todos achavam que ele era uma boa pessoa. Mas, era mesquinho e invejoso. Era tipo queijo Cottage em embalagem de polenguinho.

Ela era uma pessoa normal, vivendo uma vida normal. Não ofendia, não incomodava e deixava que cada um fizesse o que bem quisesse da vida. Era como um vinho do Porto tomado ao entardecer na beira do Rio Avre, em Portugal.

Um dia se encontraram no supermercado. Ele com frutas, legumes, hortaliças, queijo prato e um frasco de palmito em conserva no carrinho. Ela como batatas fritas industrializadas, refrigerantes, sorvete, chocolates e umas garrafas de vodca barata.

Foram juntos ao caixa. Ele analisava-a como uma cara de Sherlock Holmes e julgava as compras contidas no carrinho: “Como podia alguém comprar tanta bobagem? Como alguém vive assim? Por isso está tão gorda. Deve ser uma solteirona.” Ela apenas pensava que sua vez na fila estava demorando muito.

Ela pagou com cartão de crédito para o dia do vencimento. Ele pagou em dinheiro, uma nota grande e azul. Ele foi no novo carro que acabara de comprar. Ela foi a pé, morava a duas quadras dali.

Ele ligou o som do carro e saiu cantarolando alguma música do Gilberto Gil, talvez fosse Caetano Veloso. Ela saiu assoviando a música tema da sua minissérie favorita.

Ele chegou em casa e ninguém o recebeu. Foi para a cozinha e fez uma salada com as coisas que tinha comprado. Ela chegou em casa e foi recebida pelo marido e uma dupla de amigos. Foi para a cozinha, separou copos para a vodca e uma vasilha para colocar os salgadinhos.

Ele foi pro Facebook invejar, reclamar e falar mal de todo mundo. Ela foi ser feliz.