Ela estava solitária no seu apartamento vazio. Uma pilha de revistas, uma máquina de escrever que herdou do avô e meia dúzia de discos de jazz faziam parte do ambiente. O telefone não tocava, a campainha idem e ela achou que o minúsculo ap já era grande demais para ela e o seu sentimento de abandono.

E como diz o ditado: “Cabeça vazia é oficina do diabo”. Ela pensava em mudar a cor do cabelo, talvez cortar curtinho como a Anne Hathaway. Tatuagem seria legal, mas qual desenho escolheria? Beber já não fazia sentido, pois quando a garrafa esvaziava, a cabeça ainda continuava cheia.

Tentou não pensar no ex. Tentou não xingar os amigos que agora não tem tempo para ela. Tentou dormir, fazer ginástica, cozinhar e ir ao cinema. Nada daquilo agradava. Tudo era chato. Ela achava que a solidão era um sentimento fútil ou uma coisa de gente boba. Mas, descobriu que a solidão é real, dói e cria sentimentos confusos.

Então, decidiu dormir. Amanhã começaria na academia, no curso de cozinha do Senac perto da sua casa e ainda arrumaria tempo para ler aqueles livros que comprou e não tirou do plástico. Deitou, se acomodou e dormiu coberta pelo lençol rosa de cetim que ganhou de aniversário da colega do trabalho.

Quando acordou, não fez nada daquilo. Viu que o que se cura com uma boa noite de sono é cansaço. Solidão não. Solidão se cura com amor. E amor, meu caro, não se encontra em caixas, tabletes, pacotes com 12 unidades ou vendendo ao quilo na mercearia da esquina.